—Obrigado; não quero nada; passe v. m. muito bem, e rasgue quando quizer o tal papelucho das condições que me deu... Aqui o tem. Emquanto ao que lhe devo, se v. m. não quizer esperar que eu lhe possa pagar, mande tomar conta do que eu tiver, e fica d'aqui já arrumada esta pendencia.
—Espere, homem, que ainda não chegaram as cousas a esse ponto. Eu quero fallar com a sua filha, e mau é se ella me não dá o sim. Uma cousa é ir, outra mandar.
—Não faz nada, snr. Antonio, digo-lh'o eu. A rapariga não falla como nós, e tem lá na cabeça um palavriado da breca, que não sei onde ella o foi aprender. Dizia-me o meu cunhado doutor (Deus lhe falle n'alma), que a cabeça de Carlota era um vulcão. V. m. sabe o que é um vulcão?
—Vulcão, pelos modos, é... é o mesmo que balcão...
—Bem no digo eu! Vulcão é uma cousa de lume que sáe debaixo da terra.
—Ah!—interrompeu o snr. Antonio, abrindo a bôca como em testimunho da sua admiração—Já entendo... Quer dizer que ella tem grandes fumaças de ser bonita!... Olha o milagre! bonita é, mas ha-as por ahi tão bonitas como ella, que tomaram que eu as quizesse. Emfim, eu sempre lá quero ir, dê no que der. Assim como assim, nada se perde. O que for soará. Appareça por aqui ámanhã, snr. Norberto.
Afoutado por tão estupida esperança, Antonio José da Silva teve a audacia de procurar Carlota Angela. Vae ler-se o texto d'esta visita, porque foi ella uma das maiores affrontas que a desgraça fez á pobre menina. Todas as outras, confrontadas com esta, eram favores da fortuna.
O snr. Antonio ignorava a pratica dos conventos, ao tocante a locutorios. Quando o introduziram, pela primeira vez de sua vida, em uma grade, o alapuzado moço achou-se affrontado com a vista dos ferros. Carlota appareceu com sua tia, meia hora depois que a esperavam. Esse espaço de tempo fora necessario á freira para convencer a sobrinha de que não era civil nem bonito deixar de receber a visita, qualquer que fosse a intenção da pessoa que a visitava.
—Bons dias, minhas senhoras—disse Antonio, avançando e recuando, tres vezes, uma assaralhopada cortezia.—Não me conhecem?
—Já soubemos que era o snr. Antonio José da Silva que procurava minha sobrinha—disse soror Rufina.