—Já sabem ao que vim, pelos modos.

—Ignoramos.

—Venho a troco do que se passou com o snr. Norberto.

—Parece impossivel!—acudiu Carlota—Eu creio que disse claramente a meu pae o que é escusado repetir ao snr. Silva.

—A menina ha de fazer favor de me ouvir um bocadinho, se não tem muito que fazer.

—Pois não! queira fallar—disse Rufina.

—Eu sympathiso com a snr.ª D. Carlotinha desde que a vi nas endoenças da Misericordia faz agora cinco annos. Já então me deu na venêta de a pedir ao snr. seu pae; mas rosnava-se por ahi que a menina não gostava de rapazes do negocio, e tinha lá suas tendencias para a farda. Metti a falla no bucho, e esperei até ver no que paravam as cousas. Depois aconteceu em sua casa a desgraça d'aquelle grande roubo, o snr. Norberto ficou mal arranjado de fortuna, e eu, como o outro que diz, fiquei sendo o mesmo homem a respeito da menina. Fui pedil-a a seu pae em casamento, e elle ficou a pular de contente, porque, a fallar-lhe a verdade, não é por me gabar, mas seu pae não endireita mais a cabeça se eu não casar com a menina. Em primeiro logar, rasgo as letras que se vencem contra o snr. Norberto no mez que vem, depois empresto-lhe quasi sem juro o capital necessario para elle montar o negocio no pé em que estava antes da quebra; depois, arremato a quinta do Candal em nome da snr.ª D. Carlotinha, porque já ouvi dizer que a menina gosta muito da aldeia, e eu tambem não desgosto, porque lá cômo muito melhor, e as aguas são mais leves. Pois é verdade: eu venho para este fim. Agora veja lá a menina o que decide. Se quer ser minha esposa, trato de arranjar os papeis, botam-se os banhos, e vamos a isto. Então que diz?

—Já respondi a meu pae—disse, com mal disfarçada cólera, Carlota Angela.—Não me queixo do snr. por aqui vir com similhante fim; creio que meu pae, por delicadeza, lhe não diria sem rebuço a minha resposta. Eu não caso com o snr. Silva, nem com alguem. Resolvi ser religiosa. O meu tempo de noviciado acabou. Estou esperando a licença regia para professar.

—Deixe-se de asneiras—atalhou Antonio José, soltando um boçal frouxo de riso que indignou Rufina e enojou Carlota—Pois a menina quer-se vir aqui metter n'esta espelunca, podendo ser rica e viver regaladamente como pouca gente! Tenha juizo, creaturinha! Isto de convento é bom para quem não tem, como o outro que diz, um marido que lhe dê tudo o que for necessario para o augmento da sua pessoa, e que a traga nas pontinhas.

Carlota erguera-se para sair. Rufina seguira o exemplo da sobrinha. Antonio José da Silva permanecera refestellado na cadeira, até que se ergueu, forçado pela silenciosa mesura das duas senhoras, exclamando: