—Então que diz?!
—Minha sobrinha já respondeu ao snr. Antonio—disse a freira affavelmente.
—Com que então, nada feito?—redarguiu o lêrdo aspirante ao matrimonio, que, dez annos depois, lhe empeçonhou a existencia, segundo reza a chronica já citada, da qual entendemos que a leitora deve prover-se, se a zanga que lhe faz o bronco mercador de pannos requer uma vingança superior ao delicto—Pois sabe que mais, snr.ª D. Carlota?—proseguiu, erguendo-se, com modos colericos, e brutalmente canhotos—Eu entendo o que isso é, e bem sei por que a menina anda a fingir que quer ser freira p'ra dar tempo a que elle volte lá do Brazil.
—Elle! quem?!—exclamou Carlota com assomos de indignação, que o só olhar da tia sofreou.
—Faça-se de novas! pois não sabe quem?! o da marinha, aquelle que lhe caiu lá no gôto, porque trazia a cintura arrochada no fardalhão, que sabe Deus a quem elle o ficou devendo, quando foi para Lisboa...
Carlota Angela saiu precipitadamente da grade; soror Rufina ficou para explicar ao sandeu a descortezia da sobrinha; aconteceu, porém, que elle não se julgou affrontado pelo impeto da saida.
—Snr. Antonio—disse a freira—v. m. está ahi fallando n'uma pessoa que morreu. Minha sobrinha não espera alguem.
—Eu não sabia que elle morreu! Isso agora é outro caso... Acho que fiz uma asneira em lembral-o á pobre moça! Faça favor de lhe dizer que me desculpe. Ora olhem quem havia de dizer que o tal rapaz dera á casca lá no Brazil! Pois eu cuidava que ella estava, como diz lá o outro, encantada por elle, como a doninha com o sapo. Ainda bem que ella lhe não caíu nas mãos, porque pelos modos o homem era jacobino, e melhor foi assim, não lhe parece, senhora Madre?
A freira não pôde deixar de sorrir ao titulo de Madre que pela primeira vez lhe fora dado.
—An?—tornou elle—está-se a rir?! então que quer dizer lá essa risadita?! Isto parece-me casa de doudos, por mais que me digam.