—Á custa de um crime... Carlota!

—De um crime que é o resultado de muitas infamias urdidas contra a nossa felicidade. É um crime só o nosso, um só; Deus perdôa, e, se não perdôa, aceito o inferno, se ha inferno, aceito...

—Cala-te, desgraçada, que insultas a religião; cala-te ahi, que enlouqueceste, Carlota, e Deus bem sabe que a tua razão desvaria!

—Não, minha tia. Eu sinto-me no meu perfeito juizo: a desesperação enlouquecia-me de antes algumas vezes; mas a esperança restituiu-me hoje o vigor da minha antiga razão; com a differença que de antes assustal-a-hiam os juizos do mundo, que a subornavam, e hoje a minha razão vê tudo como tudo é, sente-se livre, e capaz de destruir todos os obstaculos que uma falsa piedade me pozer.

—Mas tu não és já senhora de tuas acções, Carlota!—bradou a tia com azedume.

—Sou. Emancipou-me o infortunio. Se me cortarem todos os meios da fuga, resta-me o recurso do suicidio; apparecerei morta no pateo do convento.

Soror Rufina ficou tranzida. Carlota contemplou-a com pezar n'aquelle quietismo terrivel. Estava a pobre senhora com a face apoiada sobre os joelhos, e as mãos erguidas. A filha de Norberto quiz divertil-a da lethargia; mas a gélida face da freira parecia de pedra, apenas as lagrimas borbulhavam incessantes nas mãos da sobrinha.

Ao lado, porém, da consternada anciã estava a imagem de Francisco Salter. Carlota queria consolar, promettendo o impossivel; mas o coração recusava-se á mentira.

A freira benedictina promettera fugir n'aquelle dia. Se não soubera esconder a traição, tambem não seria capaz de revogal-a, ou differil-a para mais tarde.

XVIII