—Tu, filha, meditas um desatino.
—Um desatino!...
—Sim, Carlota; tu intentas fugir do convento—disse a freira com pavor.
—Não, tia...—balbuciou a trémula religiosa, mudando subitamente do semblante sereno para os gestos alvoroçados da surpreza, do mêdo, reflexivos da agitação interior que fizera n'ella o ar assombrado da tia.
—Não balbucies, desgraçada. O teu rosto está confessando o desvario do coração. Diz com animo, filha, confia á tua amiga essa resolução funesta, que não executarás, sem que as minhas lagrimas te demovam de tal desgraça. Oh! não faças tal, infeliz, que te deshonras para o mundo, e te perdes para Deus.
—Minha tia!—exclamou Carlota, abraçando-a, e soluçando palavras inarticuladas.
—É pois certo?—tornou a freira.
—É certo, minha tia, é certo que ou Deus me mata, ou eu fujo.
—Jesus! Maria Santissima! Que dizes, Carlota!
—Não posso desdizer-me, minha querida tia. Eu sou do homem que amo. Não vejo nada n'este mundo senão elle, e as suas lagrimas. Mas as suas lagrimas são-me menos preciosas que a vida de Francisco. Soffreu muito o meu desgraçado amigo, soffreu muito; é preciso que eu o indemnise com a minha reputação, com a vida, com os soffrimentos de todas as pessoas que me estimam. Eu hei de ser menos infeliz, e elle será feliz quanto se póde ser...