—Se a minha mãe conhecesse a nobre alma d'elle!—proseguiu ella—havia de amal-o tambem.

—Eu?... ora essa! tu és maluca!—atalhou Rosalia, comprehendendo á lettra a palavra amal-o.

Maluca! porque, minha mãe?

—Pois tu disseste ahi que eu havia de amar o tal homem!

—Pois se elle tem um coração tão bem formado! Esteve mais de um anno sem me dizer que queria ser meu esposo, para que eu não pensasse que elle namorava a minha riqueza. Foi preciso dizer-lhe eu que a minha maior ambição n'este mundo era fazel-o senhor do meu coração para toda a vida. Quando eu disse isto, até chorava de alegria elle!...

—Está bom, está bom, estamos decididos—disse Norberto, receiando que os diques da ira se esboroassem.—Logo que o tio doutor venha de Lisboa trata-se d'isto. Ámanhã vamos para o Candal. Lá é escusado andar com fallatorios do mirante para a estrada. Cá não se usa as noivas andarem a namoriscar á surdina. Já se sabe que elle ha de ser teu marido; o tio doutor quando vier, ha de convidal-o para nossa casa, e então conversarão á sua vontade.

Norberto saíu com as faces incendiadas, como se a raiva abafada respirasse por ellas. D. Rosalia, porém, menos firme no fingimento, apenas o marido saiu, começou a pingar dos olhos umas lagrimas baças e granulosas como camarinhas.

Carlota acudiu a enxugar-lh'as com meiguice, consolando-a com a esperança de viverem sempre juntos, como até então. Rosalia, se a boa fé nos não engana, chorava com pena da filha, por ver que todo aquelle contentamento se havia de mudar em amargura, se não falhasse o estratagema do doutor.

Deixal-a chorar, que o seio de Carlota parece alargar-se ao pulsar vehemente do coração. Essa immensa alegria, que lhe deram, leal ou traiçoeira, ha de produzir a bemaventurança ou o inferno d'aquella familia.

Carlota tem a alma briosa e amante de mais para transigir com a perfidia.