—Impossivel o que?
—Nem te quero dizer a horrivel ideia que tive agora...
—Diz, Carlota... vejamos se se encontram duas ideias horriveis.
—Pois tambem suspeitas?... que te lembra, meu amigo?... diz, diz, se tambem julgas possivel...
—Tambem suspeito que a ida de teu tio a Lisboa...
—Sim, sim, é isso que me lembrou; mas não creias, porque meu tio é um bom homem. Ha muito que elle dizia que iria a Lisboa requerer um emprego. É ao que foi; mas... é verdade que...
—Não receies atormentar-me, Carlota; diz tudo que te faz desconfiar...
—É que hoje recebeu-se carta de meu tio, conheci a lettra do sobrescripto, quiz abril-a innocentemente, e meu pae tirou-me a carta da mão com grande sobresalto, dizendo que não era boa creação ler as cartas de outro. Eu disse-lhe que era uma curiosidade filha do desejo de saber como meu tio passava; e o pae voltou-me as costas, e eu bem vi que elle estava muito inquieto... mas...
—Duvidas ainda, Carlota, que teu tio foi agenciar a minha saida do Porto! Duvidas que não foi traiçoeiro o consentimento de teu pae, sem ao menos me perguntar que familia ou haveres são os meus?
—Isso é horrivel, meu amigo! não me convenças d'essa traição, que me matas! Elles não podem separar-nos, não! O que a morte póde fazer não o farão elles. Juro-t'o pela minha alma e por tudo quanto ha sagrado...