Francisco Salter de Mendonça, logo que chegou a Lisboa, procurou o ministro da marinha, e encontrou-o, contra as suas presumpções, bem encarado e affavel.

D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um astuto politico, sabia conhecer os parvos pavores do intendente geral da policia, e amava bastante a pasta para contrariar as suggestões do principe regente, que tremia dos pedreiros-livres, quando não tremia das conspirações da filha de Carlos IV.

Ainda assim, o ministro, protector affeiçoado de Salter de Mendonça, e particular amigo do frade progenitor, que valia muito com Mellos e Ficalhos, houve-se astutamente na recepção do official de marinha, mostrando-lhe a ordem do dia, em que era promovido a capitão-tenente, e dando-lhe os emboras da escolha acertada que o principe regente fizera dos seus talentos e energia, para, com mais dois officiaes, o enviar ao Brazil a correr com o apresto de uma esquadra, que as prevenções da guerra demandavam.

Este gracioso acolhimento desfez, ao primeiro intuito, as suspeitas de Mendonça. A intriga era incompativel com a mercê do posto, e a honraria do encargo. A reflexão, porém, sobreveio ao juizo da primeira impressão, e Salter, recordando o que se passara no Candal, creu de novo que o bacharel promovera o seu desterro, simulada com a mascara do favor.

A nova de ter sido adjunto ao intendente Manique o tio de Carlota Angela revalidou a desconfiança.

Mendonça apresentou-se ao ministro, e pediu licença para tornar ao Porto, onde o chamavam compromissos, do coração em que a sua palavra de honra se achava empenhada. D. Rodrigo objectou com a necessidade urgente da partida no praso fixo de quatro dias; discorreu profusamente ácerca da primazia dos deveres de portuguez em confronto com os particulares do coração; e encareceu o azedume com que sua alteza, o principe regente» veria posporem-se negocios do estado ás allianças amorosas de um subdito que lhe merecera tão relevante prova de real confiança.

Instava, por outra parte, o frade benedictino, e a parentella illustre do frade, vaticinando ao capitão-tenente um almirantado em poucos annos de serviço.

Para estes prophetas de glorias ensurdecera Mendonça.

O coração accusava-o de ingrato e vil, se a cabeça se deixava instantaneamente desvairar com as vanglorias da fama. A imagem chorosa de Carlota Angela apparecia-lhe como um estimulo de honra, se o fraco espirito humano inclinava ouvidos aos embaimentos da consideração, do renome, e dos altos destinos a que o conduzia uma boa estrella.

Mendonça, quando as felicitações de amigos e invejosos pareciam já galardoal-o das bizarrias previstas, meditava rejeitar não só o novo posto e a commissão mais valiosa que elle, mas tambem a patente que já tinha. O tempo urgia, e os aprestos para a saída acceleravam-se com extraordinaria diligencia. O capitão da real brigada deliberou pedir a sua baixa, ou, caso lh'a negassem, dar parte de doente. N'este proposito estava, quando recebeu uma carta de Carlota Angela, datada no convento de S. Bento da Avè Maria.