—Quando assim se amam duas creaturas, a vontade de Deus está n'esse amor: tudo que os homens fizerem contra elle é um sacrilegio, é um attentado contra os designios do Altissimo.

A noviça, depositária dos segredos de Carlota, leu tambem a carta, e foi sentar-se á cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da sua amiga.

Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava com spasmo e assombro o rosto lagrimoso de Dorothea.

—Chora, chora, Carlotinha—disse a noviça, dando-lhe o exemplo, e acariciando-a com beijos.

—Se eu podesse chorar...—balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras de frio entre os braços de Dorothea.

—E, se elle morresse, não soffrerias mais, menina?!

Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela suffocação:

—Se elle morresse... quem?... pois sabes...

—Sei; li a carta, e tua tia tambem a leu, e chorou. Eu não acho razão bastante para succumbires assim.

—Eu não succumbo... se succumbisse, estava morta... Ainda vivo; mas, Dorothea, eu creio que morro, e morro brevemente...