—Arrepende-te, alma de pouca fé!—disse a tia, mostrando a sua nobre fronte de cabellos brancos, coberta com o magestoso véo negro, por entre os cortinados do leito—Que fallas ahi em morrer, creança! Vida, muita vida, e muita confiança em Deus, e esperança em dias melhores, é o que te ensina esta carta, mulher sem animo. Vamos lel-a de novo: sou eu que a leio, e veremos se o coração de uma velha sabe melhor que a moça entender o coração de um mancebo.

D. Rufina, sorrindo com fagueira graça, abriu a carta, sentou-se na cama de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, não deixando sem ellas a menor phrase esperançosa.

A respiração profunda de Carlota, o convulsivo soluçar, o gemido indomavel que lhe fugia em agudissimos ais, interromperam, muitas vezes, a leitora. Era então que as consoladoras annotações de Rufina, e o assentimento da noviça, redobravam de persuasiva eloquencia, capaz de maravilhar as freiras, que suppozeram sempre estranha á linguagem das paixões a austera religiosa.

Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensivel resultado das suas consolações, appellou para o influxo sobrehumano da religião.

—Venham cá ambas,—disse ella—vamos todas tres pedir de joelhos ao Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco.

—Sim, sim!—exclamou Carlota Angela, saltando do leito, e seguindo-a com passos vacillantes.

Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difficil estremar entre as tres qual era d'ellas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era a devoção de todas.

—Agora respiremos!—disse, terminada a reza, a freira—Has de vel-o, has de ser sua esposa, minha Carlota.

Nas grandes agonias, qualquer esperança exalta a crença em agouros, em presagios, em superstições até. Carlota, pensando que sua tia recebera a suprema graça da revelação, exclamou com alegria e transporte:

—Que foi, minha tia? Disse-lh'o Deus?