O bacharel Sampayo deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e lançou-as ao brazeiro, aquecendo e esfregando as mãos á lavareda. O malvado queimara alli o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da mais dorida saudade que ainda apertou coração de homem! O impio não se amiserara de tantos signaes de lagrimas em que a tinta se apagara! Que raptos de alegria, e suspiradas consolações aquella carta, que voejava no ar em faúlas, levaria a Carlota! Que esperanças tão bellas o perverso queimou com a chamma d'aquelle papel!
Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com Dorothea, o primeiro em que devia receber novas de Mendonça, mandava todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio, esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vão! A antiga dor renascia em cada correio; redobrava a afflicção a cada esperança frustrada.
Conspiravam em consolal-a Rufina e a noviça, esta com razões mais carinhosas que persuasivas, aquella confirmando o vaticinio da felicidade promettida. Os allivios da primeira eram sempre proficuos e desejados; os da segunda faziam-a proromper em gemidos, que tambem eram desabafo.
Decorreram tres mezes de afflictivas esperanças, sempre enganadoras para todas. Nem uma carta, nem duas linhas escriptas no leito da morte!
Carlota Angela tremia de pronunciar uma desconfiança acerba que lhe trazia o coração em agonias. Soror Rufina rogava incessantemente á bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobresaltava a ella. Dorothea segredava á freira os seus receios, e esta pedia-lhe muito encarecidamente que não proferisse uma palavra sobre tal desconfiança.
Acontecia, porém, que todas suspeitavam o mesmo; a morte de Francisco Salter.
Carlota receiava que as suas amigas julgassem possivel ter elle morrido; assentimento tal seria para ella uma especie de evidencia, porque tão pouco basta para certificar suspeitas entranhadas n'um espirito que a desgraça fez supersticioso. As outras calavam o presentimento funesto, cuidando que a matariam.
N'este conflicto, correu no Porto a noticia da morte de Francisco Salter de Mendonça. Ninguem sabia dizer por onde a noticia viera; os amigos, porém, do honesto e talentoso official de marinha contavam-se que elle morrera no Rio de Janeiro, quando a gloria o vinha buscar por uma carreira esperançosa de grandes destinos.
A noticia chegou ao convento. Souberam-a todas, excepto Carlota Angela.
Rufina caíu doente, e Dorothea denunciava-se á infeliz menina, evitando-a, quando mais anciosa de compaixão e carinho se sentia impellida para ella.