—Tambem digo o mesmo—atalhou Rufina.—E o mano agora que lhe quer? Consolal-a?

—Quero dizer-lhe que é preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do homem que morreu.

—Isso ha de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes.

—Isso lá é bom p'rá mana; eu cá digo as cousas como sei.

—Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo se lhe dirá com prudencia e caridade.

—Pois ella ainda não sabe que morreu o homem?!

—Não, mano; se a noticia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu não acho necessario dar-se-lhe uma nova que a póde matar.

—Qual matar, nem meio matar!—replicou o brutal arrozeiro, tregeitando com os beiços carnudos um gesto de incredulidade—Pobre de quem morre, diz o dictado. Ainda é de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas namoradas, são como as viuvas: choramigam oito dias, e ficam frescas como se não fosse nada com ellas.

—Está enganado. Pergunte a minha irmã, que tem coração de esposa e de mãe, se isso assim é. Estou bem convencida que ella fará um diverso juizo do soffrimento de Carlota. Emfim, mano, eu ergui-me da cama para vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire, pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a noticia á desgraçada Carlota. O mais difficultoso é curar depois a ferida, se o golpe não for de morte: confio em Maria Santissima que não será.

—Pois então adeus—tornou Norberto, puxando para as orelhas a gola do capote de quartos.—Arranje cá isso do melhor modo, e diga-lhe que venha cá p'ra fóra, a ver se ella se tenta com algum de tres noivos, o qual melhor, que eu trago na mira. Se eu a quizesse casar com um morgado da provincia, fidalgo, e senhor de casa com capella, já me fallaram para isso; mas, a fallar a verdade, o que eu quero é homem de negocio, ou filho de negociante com dote á vista; não faço bem, cunhada?