—Traz-me cartas d'elle? dê-m'as...

—Não trago cartas, minha senhora.

—Não?!—atalhou ella com vehemencia e sobresalto.

—Não, snr.ª D. Carlota. Francisco Salter não lhe escreveria, ainda que podesse...

—Como?! não entendo!... Não escreveria... porque?

—Se a menina serenar um pouco, tomarei a liberdade de historiar-lhe vagarosamente a vida do homem que lhe mereceu um grande amor, digno, permitta-me dizer-lh'o, de ser melhor applicado.

—Isso é uma calumnia! isso é mentira!—exclamou Carlota, sem pesar a gravidade das palavras que ouvira, e das que proferira com exaltada acrimonia.

—Eu desculpo-a das injurias que me dirige, porque avalio a surpreza dolorosa, que lhe fazem tão horriveis novas. Queira escutar-me.

Francisco Salter saiu do Porto amando-a, como se ama aos vinte e quatro annos, com esse amor imprevidente, superficial, e arriscado ás variantes do coração logo que as tempestades de outras paixões se levantam, sopradas por um casual encontro com outra mulher. Era um rapaz no comêço de uma bella carreira, com espiritos ambiciosos, sem bens de fortuna, e descontente da sua sorte... O desengano devia vir, logo que os olhos da pessoa, que elle amava, deixassem de influencial-o. Chegou a Lisboa, onde tinha valiosos amigos e parentes, e onde fora chamado para receber uma honrosa commissão para o Brazil, com augmento na sua carreira, e promessas seguras de grandes vantagens.

Francisco Salter de Mendonça rejeitaria a gloria, se o amor fosse de mais rija tempera; renunciaria um almirantado, se o coração de Carlota Angela saciasse n'elle a louvavel ambição de se fazer grande por merecimento proprio. Obedeceu ao orgulho, e partiu para o Brazil, como a menina sabe. Escreveu-lhe, talvez, uma carta muito saudosa, muito lamuriante, muito esperançosa; mas... partiu.