Aquelle estado era impossivel longo tempo. Durante vinte e quatro horas succediam-se as syncopes, cada vez mais prolongadas e assustadoras. O medico, descrido da acção dos antispasmodicos, aconselhou que lhe fallassem muito na causa d'aquelle accidente, confiado na vitalidade febril que dão as agonias moraes; e nas lagrimas consecutivas.
Assim o aconselhara; ninguem, todavia, queria encarregar-se de tão cruel flagellação.
Soror Rufina esperara a saída das incessantes visitas, para, com o soccorro do céo, executar o duro supplicio de Carlota. O coração dizia-lhe que tal expediente seria um tormento inutil; mas o medico ajuntara ao conselho razões que a convenceram.
A sós, Carlota fitou-a com uma turvação de olhar, que deu quebranto á resolução da freira.
—Se ella está demente, de que serve este triste remedio?!—dizia soror Rufina—Eu vou verter-lhe fel na chaga do coração, e nem posso ao menos contar com a intelligencia d'ella para lhe faltar á razão! Se Deus a chamasse a si, que maior felicidade lhe poderia eu desejar! Minha filha!—murmurou ella, aconchegando-a ao seio—Tu não me conheces? Sou a tua boa tia, a melhor das tuas amigas. A tua dor me dóe tambem, Carlota. É preciso que nos consolemos uma á outra. Diz-me uma palavra só, anjinho... Conheces a tua tia, menina?
—Se conheço!...—disse com meigo sorriso, Carlota, abraçando-a pelo pescoço. Rufina estremeceu de alegria, comprimindo com transporte o seio da sobrinha ao seu, e cobrindo-lhe de lagrimas e beijos a face.
—E és a minha querida filha, pois não és?—proseguiu a freira—É de mim que esperas allivios d'esta agonia, e amor para toda a vida? Aceitas as consolações de tua tia, crendo que é ella o instrumento de que a misericordia de um Deus piedoso se serve?
—Não me falle em Deus!—bradou com impetuosa violencia Carlota Angela.
Rufina tremeu e empallideceu como assombrada de um raio.
—Está douda a infeliz!—disse ella—Agora sim, creio que não ha valer-lhe! Ó Mãe Santissima, ó Senhor dos Afflictos, levae esta alma para vós... não consintaes que os labios digam blasphemias, que o espirito d'esta virtuosa creatura não sente.