—Não me falle em Deus!—repetiu Carlota, esgazeando sinistramente os olhos—Não ha Deus, nem justiça, nem misericordia. Ha inferno n'este mundo para os innocentes, para os que, fugindo ao odio humano, se acolhem ao amparo divino.

—Jesus!—atalhou a religiosa—Que palavras são essas, filha!?

—Eu não merecia esta morte, minha tia. Que fiz eu para morrer assim desesperada de achar a remuneração de tamanha perfidia?! Abandonada, esquecida por elle... Que horror!

Carlota Angela tapava o rosto, e arquejava, fugindo impetuosa aos braços da freira.

—Que horror!—continuava ella, apertando as fontes com as mãos, e tirando com violencia pela respiração—Trahida por Francisco!... Todo este amor, a amor de toda a minha vida, calcado, desprezado, ao mesmo tempo que eu o ia alimentando com lagrimas diante d'aquella cruz, onde eu cuidei que se encontrava compaixão!...

—E encontra, minha filha; e ainda agora das chagas de Jesus Christo está correndo o balsamo que te ha de curar, Carlota!

—Curar-me!... A tia não sabe o que eu soffro, não conheceu esta dor, não sabe que desesperada vae ser a minha agonia! Eu tenho a morte já na garganta. Era preciso que eu perdesse o juizo para se crer que ha Deus. Morrer assim, e sentir a causa da morte... isto é mais que barbaridade... o demonio não póde tanto, e um Deus não consentiria padecimento tamanho... Oh!... quem me apressasse a morte... quem me désse um veneno... quem me arrancasse do coração esta agonia!... Oh meu Deus!...—bradou ella, estendendo os braços para o crucifixo.

Soror Rufina correu a tomar a cruz de sobre a commoda, e aproximou-lh'a. Carlota cravou-lhe os olhos, um momento humedecidos de lagrimas, e lançou-a de si com um violento gesto de repulsão.

—É mentira tudo isso!—exclamava ella, agitando as mãos com frenesi, como se a tia teimasse em dar-lhe a cruz—É mentira tudo! não ha Deus, não ha nada a que uma desgraçada, como eu, possa recorrer! Deus não consentiria que houvesse um perverso tal como esse homem, nenhuma miseravel como eu...

—E, se souberes que foi castigado o perverso que te faz soffrer tanto, Carlota, crês que ha justiça de Deus?