—Castigado!... não ha n'este mundo castigo para tamanha ingratidão... Elle é feliz a esta hora, nos braços de outra, com os carinhos de outra mulher, e eu... aqui, nas agonias da morte, sem poder saber que tempo hão de durar!... Meu Deus, eu morro arrependida de vos ter negado, se me levardes já...—E tomando a cruz, que beijava fervorosamente, proseguiu:—Levae-me, Senhor... tirae-me d'este inferno, ou fazei que eu endoudeça! Se eu sou grande peccadora, dae-me as penas eternas da outra vida, se lá não ha memoria das amarguras d'este mundo! Dae-me o outro inferno por este, e eu darei sempre louvores á vossa misericordia!... Não me escuta!—bradou Carlota com desesperada indignação, querendo arremessar a cruz.

—Filha!

—Deixe-me acabar, minha tia... Eu não quero esperanças... esperanças!... em que? Não quero consolações de ninguem... A maldade d'aquelle homem não me deixa já crer no amor de ninguem... Fujam todos de mim, que eu sou uma mulher amaldiçoada, sem ter offendido uma só pessoa... É a maldição de meu pae que chegou ao céo. Fui enganada, tinha fé n'aquelle homem, estou assim penando, porque o acreditei... É um castigo maior que o meu delicto! Deus devia perdoar á pobre mulher de dezoito annos, e castigar o traidor por quem me perdi...

—E castigou.

—Como?

—Chamando-o a contas.

—Diga, diga, minha tia... que é? chamando-o a contas!... pois elle...

—Morreu... pouco tempo depois que perjurou, Carlota. Agora crês que ha Deus?... crês na justiça divina?

Carlota não ouvia. Os olhos pasmaram, como se a paralysia os ferisse de subito. Os labios ficaram semiabertos, como se por elles perpassasse a derradeira expiração. Os braços decairam com mortal quebranto.

A freira abraçara-a, sustendo a cruz entre os dois seios, e invocando Jesus, e Carlota.