Dorothea entrara, ouvindo os gritos de Rufina. Subira ao leito, clamando agudos ais, porque julgara morta Carlota.
—Vá ver se está algum medico dentro—disse Rufina.—Mandem-o chamar, a toda a pressa, se não estiver. Chamem tambem o capellão... Parece-me que a matei, cuidando que a salvava.
Dorothea saíra, levando o alvoroço e o terror, pelos dormitorios, onde eccoavam os seus altos gemidos. Soror Rufina, desalentada, enfraquecida de espirito, e de fé, como aquelles santos de quem o Senhor se queixou, disse, lavada em lagrimas:
—Meu Deus! são terriveis os vossos juizos, e terriveis as vossas intenções! Quando a innocencia assim padece, como castigareis o crime?
Fora como o morder da vibora entranhada o pungir de alma que vibrou em dolorosissimo tremor o corpo todo da religiosa. Era a consciencia, que recebia em si o fel da injuria que os labios cuspiram; mas não passara d'elles. A apavorada freira, livida como o sacrilego aterrado pelo remorso, ouviu um murmurio, que lhe recrudesceu o pavor. Era Carlota que lhe dizia:
—Oremos pela alma do infeliz.
Correu ao leito, correram as religiosas que entraram com Dorothea. Viram Carlota Angela com as mãos erguidas, e a face coberta de lagrimas. Ergueram tambem as mãos, choraram tambem, ajoelharam, vendo Rufina de joelhos.
—É um Padre nosso e uma Avè Maria por alma de Francisco—balbuciou Carlota, soluçando, com inexprimivel afflicção.
O medico entrava n'esse conflicto, e presenciando as lagrimas de Carlota, fez um gesto afirmativo. Dorothea interrogou-o com anciado olhar. O medico, entreabrindo ligeiramente os labios com um sorriso, queria dizer:
—Está salva.