IX

Mon Dieu! comme il est difficile
De courre avec de l'argent!

Théophile de Veau.

Trocando com vontade pouco experta,
Por incerta fortuna esta mais certa.

C. Pereira de Castro. (Lisboa edificada.)

Francisco Salter de Mendonça, de Lisboa ao Rio de Janeiro escrevera um diario, em que mais se accusava a si de ingrato que aos seus cavillosos protectores de crueis. A saudade era encruada pelo arrependimento.

Ao passo que o horizonte da patria se perdia nas orlas do mar, o atribulado mancebo já não sentia da esperança o conforto que o alentava no instante da partida. Afigurava-se-lhe um sonho horroroso estar elle tão longe, cada vez mais longe, de Carlota Angela. Ideiava e desfiava todas as consequencias que podia trazer a sua formal rejeição do encargo e da patente.

«Se me prendessem,—escrevera elle no diario—que maior prova podia eu dar a Carlota de que a minha liberdade, longe d'ella, seria o meu supremo captiveiro?

«Preso debaixo do céo em que ella vive, teria a liberdade de escrever-lhe, de animal-a, de a ver talvez um dia chegar lacrimosa aos ferros do meu carcere, e encher-m'o de quantas alegrias podem elevar uma alma nobre sobre astucias de miseraveis tyrannos.

«Seria grande mágoa para ella a minha prisão, a minha baixa, a minha quéda irremediavel no principio da vida? Oh! de certo era; mas essa dor desvanecel-a-hia a convicção de ser tão amada, tão preterida á gloria, á honra e aos sorrisos da fortuna!