«Por que não lhe dei eu o nobre orgulho de me sacrificar, de me abater aos olhos de todo o mundo, com tanto que me engrandecesse aos olhos d'ella, d'ella, para quem eu queria honras, glorias, corôas, mundos, tudo grande, tudo sublime, e tudo pequeno em confronto do coração que lhe dei?!

«E, depois, a minha prisão seria de pouco tempo, porque os meus parentes são poderosos, e o dinheiro do pae de Carlota exhaurir-se-hia ao mesmo tempo que o coração de sua filha seria mil vezes multiplicado em apêgo, em gratidão, em ternura, e coragem para affrontar commigo os obstaculos.

«Mas nem talvez eu chegasse a ser preso. Julgar-me-hia o governo em demasia castigado com a baixa, com a desconsideração e com o desprezo. Toda a gente me olharia como se olha um homem pobre, e de mais a mais rebelde ao serviço da patria. Que importava isso? Carlota Angela seria o meu talisman; as riquezas brotariam de seu coração inesgotavel; todos me invejariam ao pé d'ella; apontar-nos-hiam como modelos de affeição, e de honra na affeição, que tão rara se encontra. Com o tempo, eu seria chamado a merecer o premio de calcar a intriga, e o nosso pão na opulencia não seria mais doce que o pão da pobreza.

«Que fiz eu, homem vil, homem sem alma?

«Mascarei-me com as palavras «honra e dever», e estou deshonrado perante Carlota! Impuz-lhe um juramento de morrer minha escrava, fiz que ella me adjudicasse a sua vida, apontei-lhe o claustro como seu eterno carcere, e não tive valor para me deixar perseguir por amor d'ella!

«Ó coração duro, que assim te deshonraste com tão baixo egoismo!

«Tu choravas, quando lhe escreveste um adeus, mas essas lagrimas pôde enxugal-as a razão, tão villã como tu! Mentias n'esse pranto, abjecto, avarento, que te sentiste sobresalteado de orgulho e alegria, quando as dragonas de major da armada te deslumbraram a duas mil leguas distantes de Carlota.

«Não sou digno de mais a ver, sem córar de vergonha, não! Se ella me não escrever, se rasgar e pizar e cuspir as minhas cartas, eu devo ter o cynismo de tragar a affronta, já que tive a villania de a merecer.»

A estas paginas da consciencia opprimida, succediam-se outras de lagrimosa ternura. Nunca a saudade se exprimira com mais contrição de alma, com mais doridos afagos á imagem querida que os recebe chorosa, com devaneios de mais poesia amarga, d'essa que só sabem desentranhar do coração os que sentem voluptuosa dor em despedaçal-o.

Francisco Salter atravessara o Atlantico sem um amigo, sem um ouvido attento onde contasse, com attrição de penitente, as saudades e pungimentos que o laceravam.