Eram bellas as noites, era de magia o céo estrellado, as luas-cheias no mar parece que recolhem de mais perto, n'aquella vasta solidão, as confidencias do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de leguas, a contemplativa amada veja n'ella os olhos do que a pranteia.

Mendonça, porém, angustiava-se mais com esse espectaculo, só donoso de extasis, e dulcissimo de espirituaes colloquios para amantes felizes.

E escreveu assim:

«O desgraçado não supporta as alegrias dos homens, nem as da natureza. Se a sua alma está de luto, cubra-se de negro tudo que o cerca. Se sulca os mares, refervam as vagas batidas pelo látego da tormenta; forre-se de nuvens torvas o céo, rebôem em turbilhões, prenhes de coriscos; rua o ultimo mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira táboa do naufragado as fauces do dragão que abre um abysmo em cada resfôlego.

«O amanhecer não tem cantares, nem a tarde murmurios, nem a solidão arroubamentos para esse que a natureza repelliu de si, como leproso, chagado no coração, contagioso de pestilencial desesperança.

«Eu subi ha pouco á tolda, e vi a lua, que oito dias antes me vira no Candal, ao pé de Carlota. Não pude fital-a. Os meus olhos caíram sobre o dorso do mar, bem perto do navio, onde não chegava a refulgencia da lua. Alli estive fascinado, n'aquelle ponto negro. Similhava-se-me a um tumulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de mulher que eu lançasse áquelle abysmo...

«E fugi, meu Deus, fugi, porque me não déstes um raio de esperança.

«Ó Carlota, Carlota, matar-te-hia eu?!»

Este fragmento de uma pagina, transcripto ao acaso, sirva para avaliar que afflictivo tranzito lhe foram os cincoenta dias de viagem.

No desembarque, Francisco Salter de Mendonça sentiu vergar o corpo ás commoções da alma. Adoeceu, e, na ardor da febre, escreveu a Carlota essa longa carta com que o bacharel Sampayo espertou o lume do seu fogão. Eram estas as ultimas linhas da carta: