«Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso d'aqui já pedir-te o meu perdão. A memoria de um morto é sagrada. Todas as ingratidões e villanias desapparecem com o miseravel corpo que os vermes desfazem. Fica a alma no seio de Deus, ou fóra do céo. Se Deus acolher a minha, de lá te chamarei; se me repellir este espirito, purificado no fogo da saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdão, porque tu és a unica pessoa que eu offendi n'este mundo. A offensa, minha amiga, está expiada. Tenho soffrido penas sobrenaturaes. Achei doçura e suavidade no supplicio, emquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame vendilhão que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porém, que expelli em lagrimas a peçonha do coração, ouso dizer a Deus que este flagello é de mais... esta quéda na sepultura, aberta no caminho de palmas que eu de lá vira, é um acto da Providencia que assimilha um escarneo. Não tenho forças nem vista para mais, Carlota. Compaixão, anjo do céo! Amor... não t'o mereço: seria duplicada infamia pedil-o agora. Adeus.»
Após uma longa enfermidade, Mendonça esperava alvoroçado o paquebote que fazia regulares viagens entre Portugal e o Brazil.
O coração afiançava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas accusando-o, outras absolvendo-o.
O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os sobrescriptos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do sangue; depois, á maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio, a pallidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostração, o cair alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que revia suores frios.
Aquietada a angustia, depois de enfurecidos impetos, Salter quiz escrever, arrojou a penna, e levou as mãos á fronte, como a segurar uma ideia consoladora.
—Vou a Portugal!—murmurou elle—fujo, deserto, perco-me, mas vou a Portugal. Carlota está morta, ou atraiçoou-me!
Este projecto foi-lhe um desafôgo n'aquelle dia. Nenhum estorvo se lhe avultava insuperavel. O governador chamara-o para lhe communicar as ordens que recebera do governo e entregar-lhe officios do almirantado. Dava-se pressa do reino ao capitão da real brigada em executar os trabalhos commettidos, visto que Portugal ia ser compellido a reunir-se com Napoleão na causa do continente. Era um prognostico da indecorosa subserviencia com que, alguns mezes depois, a côrte portugueza rompeu com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxilio na vilipendiosa e impolitica fuga.
Não invejamos a gloria do historiador portuguez d'esse tempo, pelas nauseas e vergonhas que lhe ha de custar a narração exacta do envilecimento a que descera a terra do marquez de Pombal. Se não fosse o receio de enjoar o leitor, que lê um romance, cansado de ler livros com ideias, escrevia agora aqui uns threnos plangentes sobre a patria de D. João I e D. Manoel. Ainda me tolhe outro mêdo, e vem a ser o de me ver a braços com difficuldades na resposta aos que me perguntarem se a patria de D. Fernando I e Affonso VI valia mais em dignidade, primor, e independencia que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questões são estas que desentoam aphonicamente da indole d'esta escriptura, mais que todas sujeita a fazer-se ridicula, se dá ares de ser obra de quem sorve uma conspicua pitada, para julgar depois os reis e os povos.
O que se quer é saber no que pararam os projectos de Francisco Salter de Mendonça; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraça.