—Tambem perdeu a memoria dos conventos! Descanse, senhor portuense, tome fôlego, e tranquillise-se, porque receio d'aqui a pouco, que nem do Porto se lembre. Fallemos de outro assumpto. Como está Norberto de Meirelles?

—Está bom, não ha mal que lhe chegue...

—Aquelle homem é rijo, sendo tão magro!

—Isso é verdade!

—E sempre tão pallido!

—Parece um defunto.

—Vejo que o senhor até perdeu a memoria do seu amigo Norberto! Conhece-lhe os intimos segredos domesticos; mas não se recorda que elle é gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D. Rosalia continúa a cantar com aquella angelica voz que nós lhe conhecemos?

O noticiador estava tolhido de mêdo. A esta ultima pergunta fez uma cara de apiedar as feras. Salter cruzara os braços sobre o peito, cravara os olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampayo, e mandara-o sentar. Á segunda vez, a offerta da cadeira era pouco urbana: Mendonça pozera-lhe a mão no hombro direito, carregando com força bastante para aterrar o ensoado hospede, que se julgara em perigo. Este susto converteu-se em convicção de pancadaria certa, quando Salter correu a lingueta da chave.

—O senhor treme como todos os miseraveis alugados para uma acção infame. Não trema—disse Mendonça—que eu não lhe faço mal. Se o não fiz saltar por aquella janella, quando proferiu com menos respeito o nome de D. Carlota Angela, agora de certo o acompanharei até á porta da rua.

Mas conte-me a sua vida. Essa presença é inculcadora. O seu trajar é limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que officio tem o senhor? Vive d'estas emprezas?