—E receia perder o emprego? Homens do seu quilate não se deslocam por tão pouco. O senhor é um homem necessario ao Estado, e hoje mais que nunca ao ajudante da intendencia, porque é depositario de um segredo que o infamaria muito. Ora ande lá; escreva. Como se chama? deixe-me ver o visto do seu passaporte.
O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o braço tremulo a Mendonça, que proseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e outro furtivo ao hospede:
—Escreva lá: Declaro eu Luiz José Godinho...
A penna não escreve?!
O pallido Godinho é que não escrevia; e, se picara o papel muitas vezes com o bico da penna, fora o tremor do pulso.
O silencio de Mendonça, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho para meditar um lance dos que a desesperação suscitam, quando ha a optar entre dois perigos certos.
Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde animo do homem, não se arreceiava do impetuoso salto que elle deu fóra da cadeira, lançando mão da grossa bengala.
—Deixe-me sair, quando não, atravesso-o com este estoque!—exclamou o transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao ventre de Mendonça.
O que susteve o official de marinha firme no seu posto, foi mais o espanto que a bravura.
—Então?—bradou o amanuense da policia, livido e tartamudo como se fosse elle o ameaçado—Abre-me a porta, ou não abre? Olhe que eu passo-o de um lado ao outro!