Francisco Salter afastara-se; Godinho correra á porta, vendo desapparecer o adversario; rodara a chave com feliz exito; galgava o corredor que o devia levar á escada; mas na extremidade d'esse corredor havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de Mendonça, recuou o braço armado para impellir uma estocada porém a ponta de um faim a duas pollegadas do peito, restaurou-lhe o juizo prudencial, que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal e propicio de quantos tinha: gritou aqui de el-rei que o matavam, a berros de possesso, tres vezes, sem tomar fôlego.

—Cala-te, miseravel, que ninguem te mata!—disse Mendonça.

A força accumulara-se-lhe nos pulmões: era um gritar de homem que estrebuxa quasi esganado.

—Vae escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz.

—Aqui de el-rei que me matam!

—Então salta d'aquella janella abaixo, e diz ao bacharel Sampayo que te recompense a fractura das pernas!

—Aqui de el-rei que me matam!

Mendonça, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho galgou oito degraus com destreza de funambulo, mas do oitavo para baixo faltou-lhe o equilibrio, e resvalou de costas até ao patamar. Ahi, quiz erguer-se; mas os musculos intercostaes desobedeceram á velocidade do espirito. O primeiro amanuense da intendencia soffrera desagradavel reforma na disposição das costellas: sem embargo, Azais notaria ahi uma nova compensação: as cordas vocaes augmentaram de rigidez; os aqui de el-reis eram cada vez mais estridentes.

Os visinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era hospede.

Hospede do capitão-general!