Isto inquietou Mendonça e desenvolveu a inergia caridosa dos circumstantes. Qual d'elles mais carinhoso e diligente em saber a offensa para depôr contra o offensor, porfiavam em conduzil-o nos braços. Godinho dizia apenas, comprimindo as costellas, rebeldes ao arquejar doloroso do diaphragma, que puxava por ellas:
—Sejam muito boas testimunhas que o snr. Francisco Salter de Mendonça me quiz matar, em sua propria casa!
Conduziram-o uns, e ficaram outros, em grupo, á porta de Mendonça, e defronte das janellas, contando aos que passavam a tentativa de assassinio perpetrada pelo official de marinha.
Luiz José Godinho trouxera da intendencia carta de apresentação ao conde dos Arcos, e outras confidenciaes, sobre negocios do Estado. O governador hospedara-o com distincção, julgando-o digno da hospedagem pela confiança que apparentava merecer a Manique, e conhecimento, que tinha, da causa mysteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto.
Uma hora depois d'este successo, cujas consequencias não surprenderam o imprudente moço, o capitão da real brigada foi chamado á presença do governador, e interrogado ácerca dos motivos que lhe dera Luiz José Godinho para tamanha ferocidade, em sua propria casa, que deve ser asylo sagrado até para inimigos, quando se é cavalheiro. Mendonça, enfadado pelo ar supercilioso do interrogatorio, respondeu que fosse inquirido em sua presença o offendido, que era essa a praxe da lei.
O governador espinhou-se, e mandou recolher á cadeia o official, para ser entregue aos juizes do crime.
Francisco Salter de Mendonça não grangeara amigos nem protectores no Rio de Janeiro. O seu viver fora intimo e só, fóra do serviço. Entretinha-o, na soledade, a amargura.
A justiça ouviu com sobrecenho a defeza do joven official, e achou a justificação inferior ao delicto. Godinho negava ter confessado o embuste para que viera commissionado pelo ajudante do intendente geral da policia. Os magistrados, porém, convictos de que o offendido era pessoa bemquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros, negaram ao preso, em ultimo recurso, o direito de se defender de um estoque.
Mendonça escreveu para o reino; mas Godinho voltara, são e correcto das costellas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou foi o bacharel Sampayo.
A situação do amante de Carlota Angela era extremamente infeliz.