Ao cabo de quatro mezes de carcere, sem novas do reino, nem absolvição da culpa, perdera o animo e a esperança.

Já lhe não era lenitivo o escrever no seu diario, porque a dor, ao encadeiar-se na desesperação, seu derradeiro elo, quebrou no coração as cordas onde soava o gemido.

Depois veio a furia, que contorce e despedaça, o impotente raivar contra os homens e contra Deus, a tentação do suicidio, combatida pela imagem de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova d'ella.

Mendonça tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque não sabia consolal-o.

Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do reino, ignorantes da sua prisão, e implorava aos juizes a liberdade do preso; alcançando apenas para si repellões desprezadores e, muitas vezes vergoadas de chibata sobre as lagrimas.

O escravo offerecera-se a Mendonça para vir a Portugal com cartas. Esta vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um deposito equivalente ao valor da cousa, não consentiria a sua saida, e Mendonça, desprovido de meios para a sua subsistencia, não podia garantir com dinheiro a volta do escravo...

Conspirava tudo contra o desamparado moço. O proprietario do negro, receioso de perder o aluguer, visto que Mendonça lhe não pagara um mez, chamou a si o escravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preço mensal do seu unico amigo, e continuou a ver, perto de si, aquelles olhos reluzentes de lagrimas, lagrimas que lhe faziam bem ao coração, porque o mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o olhar compadecido de um cão.

Entretanto o escravo ideiara o arrojo de vir a Portugal, fugindo.

Trabalhava na difficil execução d'essa traça, quando a escuna Guerra-voador chegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o principe regente saíra de Portugal para estabelecer a côrte n'aquelle porto.

Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao carcere.