As orações eram contínuas. A communidade ia do quarto de Carlota para o côro, e do côro tornava ao quarto em ancias e esperanças que o fervor da oração lhe dera.
De uma vez, encontraram-a tranquilla, risonha e desopprimida. Uma a uma, Carlota chamou-as á beira do leito, apertando-lhes a mão, e murmurando uma palavra inintelligivel.
Ás que choravam pedia que a não lastimassem, porque ella estava consolada com a esperança de descansar. Ás mais idosas, e veneraveis por sua santa vida, supplicava que a protegessem com os seus merecimentos, pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas d'esta vida.
Perguntava pela mãe, mas, se lhe fallavam do pae, se lhe diziam que elle vinha todos os dias saber d'ella, Carlota franzia a testa, e dava sustos de crescimento febril.
Soror Rufina esperava que ella lhe fallasse de Francisco Salter; Dorothea, a carinhosa noviça, aventurava algumas palavras allusivas; Carlota, porém, nunca permittiu á primeira, com o seu silencio, proferir tal nome; e á segunda, debulhando-se em lagrimas, fazia com a mão um signal de não poder ouvil-a.
Uma tarde, as duas meninas passeiavam no pomar: era a primeira vez que a filha de Norberto de Meirelles saía do seu quarto.
—Quando professas tu, menina?—disse Carlota.
—D'aqui a tres mezes.
—Já? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove mezes; mas ainda temos tres mezes de companheiras de noviciado.
—Pois queres professar, Carlota?!