—Quero, Dorothea, quero; se me não valesse essa esperança, estava morta. Já agora, o que me resta n'este mundo é o bem de me julgar perto de outro: d'aqui até lá, quero estar vestida com a minha mortalha, pedindo ao Senhor que... dê o céo...

Carlota, entalada por subitos soluços, não proseguiu.

—Diz, minha amiga... tu não me dizes tudo—acudiu Dorothea, abraçando-a com estremecido amor—ias fallar n'elle?... por que foges de me dizer que ainda o amas no céo?!

—Fugia de t'o dizer, Dorothea, porque o teu coração não póde avaliar que amor era este que perdôa a um ingrato, e daria a vida para o restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei e perdi. Mais desgraçada que eu ha uma só pessoa: é a mulher que o adorava; e mais desgraçado que ella e que eu, é elle, o infeliz, a quem tão pouco tempo o Senhor deixou gosar a mulher que o mereceu mais digna do que eu fui, e não teria, talvez, um pae que a aviltasse aos olhos d'elle.

—Como o teu coração é bom, Carlota!

—Bom? quem sabe! desgraçado, sim, ou diz antes, Dorothea, que já não é coração; só sinto a minha alma, só sinto este desejo do céo; recordo quanto amei, quanto soffri, e tudo aceito, e o mais que soffrer, com o contentamento de uma penitente.

—Pois verás que ainda havemos de ter dias de alegria, Carlota! Adopta-me como tua irmã; viveremos tão queridas e juntas, fallaremos tanto do que sentirmos triste ou agradavel, que chegaremos a gosar a existencia...

—Não penses isso, minha amiga... Eu não quero dar-te quinhão das minhas amarguras. O meu curto viver ha de ser muito oppressivo para as pessoas que me estimarem. Muitas vezes te fugirei, porque o chorar de uma infeliz, como eu, precisa ser desafogado, sósinho, e aos pés de Deus. Alegria? jámais, jámais, Dorothea... Bemdito seja o Senhor, que me dá esta casa para acostumar a minha alma a adoral-o, e me deu aqui exemplos de virtude, sem os quaes, fóra do convento, tinha-me tirado a vida n'um d'aquelles frenesis de que tremo com a lembrança.

Estas palavras foram ditas com serena melancolia; porém decorrido breve intervallo de silencio, Carlota rompeu em gemidos, lançando-se ao seio de Dorothea.

—Que tens, Carlota? Ainda agora estavas tão socegada!...