A humildade com que fizera a reverencia, o subito rompimento das lagrimas, que a noviça não podera represar, a voz compungida da prelada, proferindo o quid petis, e o soluço tremido de Carlota, respondendo misericordiam... «a misericordia de Deus e a vossa», a terrivel magestade do silencio, durante as genuflexões da noviça; todos estes actos, impressivos de religiosa melancolia, tocaram o coração das religiosas a ponto de correrem lagrimas por todas as faces, no momento em que a prelada, commovida como todas, disse a Carlota, ainda ajoelhada ante si: Surge, «levanta-te».

A noviça voltou-se com as duas religiosas para o altar-mór, enxugou as lagrimas emquanto fazia as reverencias do ceremonial, ajoelhou de novo aos pés da prelada, que proferiu uma breve pratica ácerca das gravissimas obrigações que a noviça contrahia com o promettido esposo. Carlota ouviu-a com as mãos erguidas, sem levantar os olhos para o rosto venerando da abbadessa, onde a graça, ternura e o sorriso da bondade eram um como suave encarecimento ás virtudes que aconselhava, e estimulo para merecer no céo o galardão de as praticar.

Carlota lançou de si o sumptuoso vestido, e os enfeites da cabeça. Longa e farta trança de cabellos negros se desenrolou até á cintura. Uma freira tomou a tesoura, e de dois golpes lhe cerceou a trança, que depôz em uma bandeja. A mestra de noviças cingiu-lhe a touca branca, e a prelada lançou-lhe aos hombros o habito ou mantilha. Carlota, durante este acto, parecia não sentir, não perceber a profunda e dolorosissima significação que elle deve ter para a mulher expulsa dos prazeres do mundo, onde todas as suas esperanças foram cruelmente desmentidas.

Estavam de joelhos todas as religiosas, ella, entre a mestra e a prelada. As cantoras entoaram o hymno: Veni, creator spiritus. Era um canto melancolico acompanhado a orgão; um mystico e lagrimoso offertorio da alma atribulada ao supremo consolador das angustias. Cantada a primeira estrophe, ergueram-se todas, excepto a noviça. Seguiram-se os versiculos e orações entoadas no côro e no altar-mór. A mestra de noviciado dissera a Carlota que se levantasse, terminada a ceremonia; a noviça, porém, continuava ajoelhada com as mãos entrelaçadas sobre o peito. Recommendaram-lhe de novo que se erguesse, vendo que ella estremecia, como se já não podesse sustentar a violencia da posição. Carlota não se erguia, até que lhe deram a mão, e encontraram frias de neve as d'ella. Fizeram vão esforço para levantal-a, algumas freiras que a rodearam. Carlota não respondia, apenas respirava; quiz obedecer ao impulso que lhe davam para erguer-se, mas á pallidez, ao turvamento da vista, seguiu-se o desmaio.

Soror Rufina, Dorothea, e as outras ergueram o alarido do susto. Na igreja estava a mãe de Carlota, escondida na sua mantilha, chorando, recitando Padre-nossos machinalmente, e promettendo a Deus confessar-se da sua culpa, se era culpa ter occultado a sua filha o engano que o tio doutor lhe urdira, arranjado com o pae.

Quando, porém, os ais do côro chegaram aos seus ouvidos, com as exclamações afflictas de Rufina, D. Rosalia saíu da teia de um altar, veio ás grades do côro de baixo, e rompeu em brados desentoados, chamando a filha. O capellão-mór, vestido de sobrepeliz, estola e pluvial, veio lembrar á lamuriante senhora, que a sua gritaria não era propria da casa de Deus. D. Rosalia replicou, menos commedida, que queria cá fóra sua filha, viva ou morta. E n'esta altercação estiveram ella e os capellães, recreando uns e fazendo chorar outros dos circumstantes, até que soror Rufina e outras freiras vieram á grade do côro aquietar a mãe de Carlota, dizendo-lhe que o incommodo fôra um passageiro desmaio.

E assim fora, felizmente.

Carlota voltou a si, quando a mãe gritava. Os brados fizeram-a sair do côro vacillante e alvoroçada. Quizeram encaminhal-a á cella; mas Carlota sabia que era costume ir a noviça, finalisada a ceremonia, visitar as doentes.

Foi; e ás mais enfermas pedia que, se o Senhor as chamasse brevemente, rogassem a Deus que a levasse para si.

XI