Pois ainda não ouvistes de seu valor o maior encomio.
José de Sousa (o cego). (Obras posthumas.)
Vereis amor da patria... etc.
Camões. (Lusiadas.)
Junot, a marchas forçadas, esperançoso ainda de obstar á saida da familia real, ia sobre Lisboa. A regencia desnorteou com a imbecilidade rara de que era dotada; a classe média, presumindo a tyrannia proxima, ainda quiz debalde oppôr um dique á invasão; mas a populaça, sedenta de anarchia, onde sevar temporariamente os vis instinctos, remoinhava, alegre e enthusiastica, rugindo como o tigre que fareja o sangue.
Joaquim Antonio de Sampayo foi, n'essa época, a preexistencia dos grandes homens, das summidades estadistas dos ultimos vinte annos. Avaliando quanto difficil seria acertar com o caminho seguro na encruzilhada das perspectivas politicas, não preferiu algum, e aceitou-os todos como conducentes á prosperidade, quando a fortuna, filha da velhacaria, vem, de puro namorada, emendar as asneiras do seu predilecto.
Sampayo lamentava com Manique o desamparo em que ficara o reino pela impolitica e precipitada fuga do principe regente. Incriminava com os fidalgos a cobardia de similhante desaire para o paiz dos Pachecos e Albuquerques. Ouvia com acquiescencia os murmurios da nobreza contra a dynastia bragantina, murmurios timidos, que mais tarde se formularam n'uma vilipendiosa petição, requerendo ao usurpador um rei da sua escolha, e nomeadamente o general Junot, que comprara consciencias tão degeneradas como a do conde da Ega, e do bispo do Porto, Antonio.
Com a classe média, Sampayo bociferava contra os francezes, e promettia sacrificar nas hecatombas da patria a sua ultima pinga de nobre, generoso e patriotico sangue. Todavia, exhausto o fôlego das imprecações retumbantes, e accendida a flamma do heroismo nos peitos burguezes que se apinhavam nas praças, Sampayo, passando da iracundia ao reflectido exame das circumstancias, dizia que a sublevação popular seria um desatino sem proveito, um sacrificio de vidas e fazendas intempestivo e inglorio para as quinas lusitanas. Sobre isto, vinham os conselhos de homem que privava no segredo dos destinos de Portugal, conselhos de paciencia, de resignação, e, mais que tudo, de maxima prudencia na entrada de Junot.
Relacionado com a plebe, em razão do seu ministerio na intendencia geral da policia, o antigo advogado da rua de Santa Catharina insinuava-se nos grupos desordeiros e respondia com impertigamento de oraculo ás perguntas desconchavadas que lhe faziam. Napoleão, dizia elle que não era o impio que se dizia. Napoleão, e os seus generaes, não saqueavam as igrejas, nem arrombavam as portas dos conventos de freiras, nem violentavam a virtude das donzellas, nem attentavam contra a liberdade do povo. Pelo contrario—continuava elle, baixando cada vez mais a voz, e relanceando o olho observador por sobre as physionomias suspeitas que chegavam de novo—pelo contrario, Napoleão queria mudar a face das cousas em favor das classes opprimidas, chamando o povo á partilha dos regalos e direitos que a classe nobre lhes viera usurpando pouco e pouco através dos seculos. Dito isto, o povo rompia em vivas a Napoleão, e acclamava general o doutor Sampayo, que se esgueirava surrateiramente pela primeira brecha que a agitação lhe proporcionasse.
D'alli, ia á intendencia dizer a Manique o fermento que azedava os rasteiros instinctos da canalha. Alvitrava o emprego da força armada para dispersar os bandos, com prudencia; e, compungido de patriotica lastima, deplorava o indiscreto arbitrio dos palacianos que aconselharam ao principe uma fuga tão calamitosa no instante em que o prestigio da nacionalidade estava na presença do soberano.