Fora nomeada uma deputação para cumprimentar Junot. Além dos expressamente enviados pela regencia, Joaquim Antonio de Sampayo associou-se na deputação com alguns particulares, que se davam pressa em depôr aos pés do invasor a porção infame do paiz que elles representavam.

O ajudante do intendente arremedava a lingua franceza, e fazia-se entender melhor que o deputado da regencia, o tenente-general Martinho de Sousa e Albuquerque.

Junot, em Sacavem, chamou Sampayo a uma conferencia particular, e informou-se de cousas que a deputação não elucidava por astucia, ou por ignorancia da lingua. O certo é que o general francez, maravilhado do bonapartista, ou da torpeza do informador, julgou-o necessario, agradeceu-lhe com um aperto de mão os serviços prestados ao reformador da Europa, e prometteu-lhe acrescental-o, quanto em si coubesse, em honras e fazenda.

Chegados a Lisboa, as proclamações que circulavam entre a populaça eram de Sampayo. N'ellas se aquietava o espirito publico, dizendo-se que o excellentissimo senhor Andoche Junot, heroe de Toulon e de Nazareth, era o emissario da paz, da ordem, e da prosperidade portugueza; que a propriedade era sagrada para o exercito do imperador da França; que a virtude das virgens, e das menos suspeitas d'esse respeitavel estado, era inviolavel; que ninguem fugisse de suas casas, nem viesse para a rua fazer assuadas, algazarras, ou outras que taes manifestações de desordem e descontentamento.

O bacharel Sampayo ajudara, na vespera do embarque da familia real, a encaixotar as pratas da patriarchal, que deviam acompanhar os reaes emigrados. A celeridade, porém, do embarque, fez que os quatorze carros de preciosos objectos ficassem no caes de Belem, e voltassem, com grande jubilo do cabido, a serem armazenados na sacristia da igreja. Sampayo, emquanto se encaixavam as riquissimas bandejas, castiçaes, corôas, lampadas, etc., resistira heroicamente aos assaltos da ladroice, que lhe estavam segredando o modo de empalmar algumas peças miudas de preciosissimo trabalho. Pôde sopear a tentação; mas não via, sem grande mágoa, confiar-se aos caprichos do oceano uma carga tão valiosa. Um tal ou qual allivio o desopprimiu da sua pena, quando viu ficarem em terra os carros, e voltarem depois a despejarem a prata sob o tecto protector da sua igreja. Sampayo, a proposito d'isso, asseverou ás freiras de Santa Anna, onde almoçava todos os dias, que andava alli milagre n'aquella reconducção! Não acreditava elle, porém, que o milagre fosse perfeito e averiguado, emquanto um bom quinhão d'aquella prata não entrasse em casa d'elle. Convencido do «trabalha, que eu te ajudarei», o bacharel concorreu quanto em si cabia para que o milagre se completasse.

O processo não deixa de ser engenhoso: «engenho» é a palavra com que a civilisação, ainda então embryonaria, substituiu a palavra «ladroeira» dos costumes, das biographias, e das acções humanas, que, por força do progresso, hão de ir perdendo a nomenclatura aspera e illogica que lhe davam os gothicos moralistas de carcomida memoria.

O engenhoso Sampayo (diga-se assim de um homem que merece o respeito que se presta aos contemporaneos, apesar do seu atrazo de meio seculo), o engenhoso bacharel pediu uma audiencia particular a Junot, e denunciou-lhe a existencia de quarenta caixões de prata na igreja patriarchal.

Junot chamou seu cunhado, que por signal se chamava Jufre, e commetteu-lhe o encargo de sequestrar a prata, associado ao serviçal e benemerito denunciante.

Os dois, com alguns operarios de confiança de Sampayo, entraram na igreja, fecharam-se cautelosamente, e arrombaram os caixões, excepto dois, que não foram inventariados, ou o denunciante se encarregou de os inventariar em sua casa, para onde foram transportados, ao escurecer.

Completou-se d'esta arte o milagre, que Sampayo, em beatifico extasi, agradeceu toda a noite, contemplando uma a uma as formosas e corpulentas peças que tencionava fundir em baixella de seu serviço, quando melhores dias de ordem e tranquillidade fossem concedidos ao desgraçado Portugal, que elle continuava a prantear com as freirinhas de Santa Anna.