—Nada de susto, mano. Vossê não sabe o que são mulheres. A rapariga tem venêtas e caprichos; o acertado é deixal-a barafustar, e ella virá cá ter ao caminho das outras. De paixão ninguem morre; e, no convento, isso então digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas dão tanto aos taramelos em cousas de amor, que lançam o amor pela bôca fóra, em logar dos figados. Deixe-a lá estar á vontade, e dê-lhe a entender que o seu maior gosto n'este mundo é vel-a freira. Nada de contradizel-a. Mulheres e creanças amuadas é deixal-as renhir. Se vossês começam a carpil-a, então não fico pelo resto.

—Então o doutor não vae lá tirar-lhe a tolice do miolo?!

—Não, senhor, não vou, é escusado lá ir, e se for é para lhe dizer que muito me agrada a sua resolução, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a liberdade do mundo, e pintar-lhe com côres tristes o jugo do convento. Assim é que se levam as mulheres, snr. Norberto, e, se ellas teem a soberba de Carlota, então nada de disputar. A astucia manda dizer com ellas, até as fazer passar á contradicção, porque a harmonia é impossivel em indoles orgulhosas.

—Oh doutor! o senhor tem uma labia que revira a gente! Homem, eu estou a dar-lhe razão! Parece-me que o melhor é isso! Está dito! deixemol-a lá com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso á minha Rosalia; mas, antes que me esqueça, cunhado, esta cousa de governo está segura?

—Segurissima.

—É que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que désse e viesse.

—Não tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como debaixo da terra. Sabe o que ha de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos meus caixões de prata, e vá enterral-os na adêga do Candal. Eu tenho mais mêdo á canalha nacional que aos soldados de Napoleão. Quando correu na capital que s. exc.ª o snr. governador ia dar a Lisboa a saque, saíram para as praças as turbas da gentalha portugueza, esperando a hora do assalto. D'estes é que eu tenho mêdo, e por isso sou de parecer que se acautele o nosso precioso, com summa prudencia. O Candal é bom sitio, porque fica arredado da estrada. Ponto está que o mano encarregue o serviço de enterrar os caixões a pessoa fiel, que não denuncie o escondedouro.

—Não me fio em ninguem, cunhado. Quem ha de enterrar esse todo-nada de dinheiro que por ahi está, e mais os caixotes de prata, hei de ser eu, se Deus quizer.

Assentiram n'isto, e, logo no dia immediato, Norberto de Meirelles pôz mãos á obra, com o auxilio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte para o Candal com disfarce. Os caixões sairam de noite, e os conductores, depondo-os no quinteirão da quinta, não poderiam malsinar o local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem esquadrinhal-o.

Norberto de Meirelles, auxiliado por D. Rosalia e o proprietario das pratas da patriarchal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e ficou assim desaffrontado dos sustos que lhe traziam o animo opprimido, desde que Francisco Salter de Mendonça lhe presagiara um possivel assalto ao seu dinheiro.