Sampayo, atarefado com o julgamento dos réos processados no tribunal de que elle era juiz inconfidente, só teve ensejo de visitar Carlota, um mez depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a mãe, que de proposito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado repugnancia em receber a visita do tio.

O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, começou por louvar e abençoar a acertada resolução de sua sobrinha, exaltando os merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com sãs doutrinas preventivas contra as tentações do demonio, acerrimo inimigo dos votos claustraes.

Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosalia com enfado. A boa senhora não comprehendia a esperteza de seu irmão, e confrontando-a com a estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do outro. Foi-lhe á mão com as suas razões cem vezes repetidas á filha. Chorou copiosamente, pedindo ao irmão que desvanecesse a tenção de Carlota; e a esta, com ternas supplicas, implorava que saísse do convento, se não queria cêdo ficar sem mãe.

Carlota respondeu que a perda de sua mãe lhe seria muito sensivel; mas que estava deliberada a aceitar todas as mortificações que o Senhor lhe mandasse, com tanto que podesse offerecer o coração espedaçado ajoelhada no altar, onde jurara votos de eterno sacrificio.

Joaquim Antonio de Sampayo, piscando o olho á irmã, louvava de novo a devoção de Carlota, e citava-lhe, como para acorçoal-a, quatro exemplos de santidade no convento de Santa Anna de Lisboa, onde elle almoçava, e contava os milagres da prata da patriarchal, salvo o ultimo.

Carlota, saíndo da grade, foi pedir a Deus perdão do odio que tinha a seu tio. Soror Rufina, confidente d'esta ruim paixão, orou com ella, e penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternaes conselhos que lhe dera, e o applauso com que a ajudava a defender-se das instancias de seus paes.

O bacharel, maravilhado d'esta carta, modificou a sua opinião a respeito da sobrinha, e planisou uma nova traça para despersuadil-a. Qual ella fosse, não sabemos nós, porque não houve tempo para executal-a.

Sampayo exerceu as funcções do juizado quatro mezes, e foi despachado juiz de fóra para uma pingue comarca do Minho. A causa d'esta mudança, ingrata ao despachado, explicou-a elle como grandemente honrosa para si, dizendo que a moderação das suas sentenças desagradara ao governo. O governo, porém, dizia que o venal juiz riscava das denuncias os nomes que representavam réos dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor recato, avultosas quantias.

Partiu para a sua comarca o juiz de fóra, recommendando ao cunhado que vigiasse os caixotes da prata, cujo descaminho viria a ser causa da sua deshonra. Por essa occasião, entregou-lhe um caixãosinho supplementar aos outros, que constava de uma duzia ou pouco mais de contos de réis, de seus ordenados e propinas, e mercês dos beneficios que fizera caridosamente aos réos absolvidos no terrivel tribunal.

Dispensam-nos de boa vontade a historia sabida dos decorridos successos que expulsaram os francezes do territorio portuguez. É certo que o juiz de fóra de ***, Joaquim Antonio de Sampayo, ingrata creatura de Junot, pôz luminarias quando soube que o exercito francez recuava ao exercito alliado. Proclamou aos povos comarcãos, chamando ás armas, e incitando os frades a que prégassem o odio contra Napoleão, e promettessem indulgencia plenaria, e salvação segura a todos os que morressem na defeza do seu legitimo principe, e dos augustos fóros da religião catholica-apostolica-romana.