O bispo do Porto, presidente da junta, e renegado como elle, sympathisou com as manhas do juiz de fóra, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor da comarca onde estava servindo.
Entra, porém, o general Soult as mal defezas raias do reino, e chega a Braga a artilheria de Laborde. Sampayo medita seriamente na sua situação, e, apasiguando os animos das turbas com discursos ácerca da inutilidade da resistencia, resolve ir ao encontro do general Lorge, que marchava contra a villa onde elle exercia a suprema auctoridade.
Diz-lhe que intimas relações o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a volta dos francezes, e faz accender o resto das torcidas das luminarias á entrada do general francez. As guerrilhas, porém, queriam resistir, e os chefes emprasavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia, mais tarde. Sampayo, arreceiando-se d'aquelles caudilhos, denunciou os principaes ao seu hospede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pezar de acontecimento tão funesto.
Retirou o general para occupar outro ponto; mas a pedido do corregedor, deixou uma numerosa guarnição á terra.
O general Botelho estanciava nas immediações da villa, e investiu com o presidio, que fugira rechaçado e mal ferido do encontro. Sampayo queria fugir com elle, sobre o Porto, para onde convergiam os differentes chefes do exercito invasor. Demorou-se, porém, um quarto de hora, carregando os bahús da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que soubera esbulhar á comarca sob os mil pretextos faceis ao seu engenho.
Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Reflectiu um instante, em lance tão apertado, e saíu a lume com uma ideia, da qual esperava a sua salvação.
Mandou tocar immediatamente os sinos das igrejas, foi elle proprio, bradando vivas ao principe, espertar o animo perplexo dos moradores da terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos.
Este expediente era já um destino da desesperação, uma loucura, que devia ter o resultado que teve. Joaquim Antonio de Sampayo viu-se rodeado de povo, e este povo pedia a cabeça do corregedor, sobrelevando á vozeria os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido espingardeados á ordem do general Lorge.
O chefe das forças portuguezas occorreu n'este momento afflictivo. O corregedor ajoelhou de mãos erguidas, pedindo-lhe a salvação.
Um do povo, que parecia ser o mais auctorisado, contrariou as supplicas do corregedor, contando ao general as façanhas. Botelho ouviu com attenção, e exclamou com serenidade: