—Enforquem-o já, que é o mais seguro.
Mais de um leitor maior de sessenta annos está recordando, n'este momento, a cabeça de comarca, na provincia do Minho, onde foi enforcado um corregedor.
Se se lembra, saiba que o fatal triangulo foi erguido para Joaquim Antonio de Sampayo. Ahi perneou esse homem de grandes espiritos, que veio cedo de mais para morrer ministro de Estado.
Rezemos-lhe por alma, mas duvide-se do aproveitamento dos suffragios. É de fé que o thaumaturgo das pratas da patriarchal caiu da forca ao inferno, onde o tortura a desesperação de ver como cá em cima andam nedios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da patria, amor do proximo, e abnegação do alheio.
Joaquim Antonio de Sampayo nascera em 5 de janeiro de 1752. Trapaceara o direito e a justiça por espaço de trinta annos, nos auditorios do Porto. Entrara com fortuna próspera na carreira das honras aos cincoenta e seis annos.
Revelara, ainda que tardio, um espirito sobre-excellente para engrandecer-se, e reflectir na sua familia as honras merecidas á custa de infamias necessarias para se ser alguma cousa n'uma terra, onde Duarte Pacheco e Camões tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos propicios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de março de 1809.
Piamente cremos que os santos da patriarchal de Lisboa, esbulhados de seus adornos, lhe urdiram este affrontoso traspasse.
Como quer que seja, homens taes, diz uma epigraphe d'este capitulo, que os leva o diabo. Levará, não duvido; mas, se lanço os olhos em redor de mim, afigura-se-me que o diabo leva uns, e traz outros.
XIII
La justicia de Dios espantosa...