Quevedo. (El sueño del Inferno.)

O noviciado de Carlota Angela terminara em abril de 1808. As licenças impetradas para a profissão não foram concedidas, porque a desorganisação em que se achavam as repartições governativas era impedimento a que se deferissem requerimentos que não importavam ao bem immediato do Estado.

Norberto de Meirelles folgava com a demora da licença, e o cunhado lá da comarca onde lhe cortaram a previdente cabeça, socegara-o com a certeza de que em Lisboa estavam prevenidas as cousas para que a noviça requeresse sempre em vão a licença indispensavel.

Carlota não se impacientava com as delongas, nem se queixava de seu pae ou tio: com tanto que a não arrancassem ao claustro, noviça ou professa, o seu coração estava com o mesmo apêgo entranhado no suave sacrificio á religião dos infelizes.

Quando a noticia da feia morte de seu tio lhe chegou, levada pela aterrada mãe, Carlota perdoou-lhe, nos labios e no coração, o mal que lhe fizera, compensando-lh'o com incessantes suffragios, da virtude dos quaes, em alma tão apodrentada de velhacadas e perfidias, é licito duvidar.

Norberto de Meirelles, n'este desgosto de familia, mostrou o grande porte de seu animo, insufflando em sua mulher espirituaes doutrinas de paciencia e conforto na vontade do Altissimo. Á socapa, porém, o arrozeiro esfregava as mãos com jubiloso frenesi, bem sabia elle pelo quê. Se D. Rosalia lhe perguntava que destino se devia dar aos dois caixotes de prata, que não eram de seu irmão, Norberto dizia-lhe que calasse o bico, e não désse á lingua ácerca de taes caixotes, que ninguem sabia de quem eram. Os escrupulos entravam na consciencia de D. Rosalia; o alheio dizia ella que chorava pelo seu dono. A este e outros anexins de sã moral replicava Norberto que se alguma vez apparecesse o dono dos caixões, munido das necessarias provas de ser o dono d'elles, seria entregue do deposito.

Entretanto que o dono não vinha, o herdeiro do bacharel fechou-se na adêga da granja do Candal, e exhumou os thesouros enterrados para conhecer do conteúdo dos caixões. Este exame dizia elle á timida consorte que era preciso para, munido de um rol, peça por peça, obrigar o dono a dar uma relação exacta dos objectos.

Tentação diabolica fora aquella! Norberto, vendo a rica baixella do culto divino contida no primeiro caixão que abriu, tão encantado ficou do bem lavrado das corôas, dos resplendores, dos calices, das ambulas, dos thuribulos, das lampadas, das bandejas, e dos ex-votos, tão encantado, tão edificado, tão preso áquelles mysticos ornatos do templo do Deus-vivo, que logo alli prometteu á sua consciencia guardar e venerar aquelles sagrados objectos, de modo que mãos impias de francezes, de portuguezes afrancezados, e ainda as do dono nunca os profanassem. Este protesto entendia-se com o primeiro caixão: o segundo antes de ser aberto, havia o negociante tenção de restituil-o, se o recheio não fosse tão veneravel e digno da sua devota guarda.

Ora o segundo caixão não era menos tentador: nem mais nem menos os doze apostolos de prata maciça, com as suas barbas venerabundas a incutirem seraphico temor e amor! Norberto alçou nos braços um dos apostolos, não tanto para fazer-lhe oração mental, como para calcular-lhe o peso, e, aproximadamente, ajuizou doze arrateis, os quaes, multiplicados por doze, davam cento e quarenta e quatro arrateis de prata. Entendeu piedosamente o arrozeiro que o segundo caixão era thesouro não menos credor dos seus desvelos que o primeiro, em razão de conter as imagens dos doze primeiros santos da religião christã, e n'este presupposto de bom juizo resolveu recommendar á sua vigilancia a guarda de tão augustas imagens, que talvez providencialmente vieram enterrar-se na sua adêga, para se esconderem á perseguição de Bonaparte, bem como os christãos primitivos se escondiam nas catacumbas para fugirem á perseguição dos Neros e Trajanos.

A escrupulosa irmã do defuncto bacharel não assistira á exhumação dos caixões; mas, sabendo dos doze apóstolos, tal ancia lhe entrou de os ver, que não houve remedio senão desenterral-os de novo.