D. Rosalia ficou encantada dos aspectos magestosos de S. Pedro e S. Thiago. Quiz que seu marido rezasse emparceirado com ella uma jaculatoria aos dois santos em particular, e a todos em geral. Norberto annuiu com a mais fervente uncção, e edificou sua mulher, propondo a repetição das ditas jaculatorias, para que os bemaventurados discipulos do divino mestre não permittissem que mãos sacrilegas dos francezes tocassem nas suas devotas imagens. Lembrou logo alli a snr.ª D. Rosalia que, passada a guerra, se não apparecesse o dono d'aquelles objectos, se havia de fazer uma capella na quinta do Candal, para que os santinhos fossem adorados por toda a gente. Concordou o arrozeiro, enterrando-os outra vez, e recommendando a sua mulher, que não dissesse a ninguem que a sua adêga estava tendo as honras de cenaculo.

Estas scenas passavam-se oito dias antes da invasão dos francezes no Porto.

Á noticia da aproximação de Soult nas trincheiras, Norberto de Meirelles fechou a casa da rua das Taipas, e foi para o Candal.

D. Carlota Angela, com sua tia e a noviça Dorothea saíram do convento para o mosteiro de Arouca. D. Rosalia instara para que a seguissem; mas Carlota vencera a vontade condescendente de sua tia, com lagrimas e rogos para que não aceitasse asylo que não fosse o de outro mosteiro menos susceptivel de ser assaltado pelos francezes.

O exercito invasor derramou-se pelo Porto, no cevo do saque e da carnagem. As portas da casa da rua das Taipas, malsinada aos francezes como bem recheiada, não resistiram ao machado. Pouco lá havia que saciasse a cubiça dos salteadores. O denunciante esteve em perigo de ser acutilado, por lhes ter feito perder tempo em arrombar as portas para saque tão mesquinho. Ora, o denunciante era um visinho de Norberto, seu inimigo, e capaz de dar um olho para que arrancassem os dois ao arrozeiro. Disse elle aos francezes que o seguissem além do rio, e elle lhes promettia boa presa, porque as immensas riquezas do negociante deviam estar na quinta.

Seguiram-o os francezes, promettendo-lhe repartir com elle da presa, ou tirar-lhe a alma e os figados, se os enganasse, ou levasse a alguma emboscada.

Ao avisinharem-se do Candal, deram rebate as espias de Norberto de Meirelles. Calou-lhe na alma o mêdo, que amarellece a cara de gemma de ovo, tapa os respiros do pulmão e promove a desordem dos intestinos todos. D. Rosalia caíu de cocoras, e entrou a bater os queixos como em maleitas, e a resmungar fragmentos da Salvè-rainha e do Padre-nosso. Dois criados da quinta, que, momentos antes, tinham estado renovando a escorva das clavinas, e apostando a qual d'elles mataria mais francezes, apenas avistaram os penachos de dez ou doze d'aquelles, que, segundo os seus projectos homicidas, deviam ser levados a murro, deram a fugir por aquelles pinhaes, como envergonhados de se baterem com tão poucos francezes. Chamava-os com desesperados berros Norberto, emquanto elles podiam ouvil-o; mas não houve gritos nem promessas que os volvessem ao posto da honra.

O negociante travou do braço da mulher, para que o seguisse, fiando a salvação na fuga. D. Rosalia ainda se ergueu; mas vacillaram-lhe as pernas frouxas, e recaíu, dizendo que morria, e queria alli morrer. O arrozeiro cuidou que a movia, assustando-a com a ideia de que os francezes a matariam, se ella não confessasse o escondrijo do dinheiro. A pobre mulher, petrificada de terror, não respondia a taes estimulos, e recalcitrava na pertinacia de se deixar matar.

Emquanto ella murmurava um acto de contrição, preparando-se para morrer o mais catholicamente que podesse, Norberto de Meirelles seguiu a pista dos criados, pela porta travessa da quinta, com o intuito de alarmar a freguezia, tocando a rebate a sineta da proxima capella.

Os francezes arrombaram a primeira porta, e outras menos robustas, até entrarem no quarto onde estava D. Rosalia de mãos erguidas, pedindo misericordia. Um da malta, com o rosto coberto por um lenço, disse-lhe em claro e chão portuguez que lhe não fariam mal a ella nem ao marido, se lhe dissesse onde estava escondido o dinheiro. D. Rosalia respondeu que não sabia. A um signal convencionado do interprete, dois refles ameaçadores ladearam o pescoço da moribunda senhora. O homem da cara coberta admoestou-a de novo, pedindo aos francezes que suspendessem a morte por alguns momentos. Rosalia, revalidando tres vezes a condição de que não matariam seu homem, disse que o dinheiro estava enterrado na adêga; mas que tambem lá estavam dois caixões de prata, e esses pedia que não levassem, porque não eram d'ella. Feito o juramento de respeitarem, não os caixões, mas a vida dos depositarios, levaram em braços D. Rosalia á adêga, para a fazerem apontar o local onde convinha cavar.