Meia hora depois, corriam contra a quinta de Norberto de Meirelles, mais de duzentos homens da freguezia, reunidos pelo toque guerreiro da sineta, afóra os fugitivos do Porto, que tinham atravessado a ponte, horas antes de lhe serem abertos os alçapões. Quando entraram na casa, com grandes alaridos e descargas, encontraram D. Rosalia á porta da adêga, prostrada n'um desmaio. Norberto adivinhou o successo horroroso. Entrou, foi direito ao tonel protector do escondrijo, achou a terra revolvida, levou as mãos á cabeça, soltou um grito cavernoso, e foi bater com as costas nos tampos sonoros do tonel. «Roubado! roubado!» exclamava elle, emquanto a multidão compadecida se derramava pelos aditos da quinta, procurando os francezes, e outros tratavam de restituir á vida a mulher do negociante, que parecia morta.

Ao mesmo tempo, embarcavam os francezes, com a opima presa, defronte de Miragaya. No meio do rio, combinaram entre si desfazer-se do denunciante, que os importunava lembrando-lhes a promessa de um quinhão do roubo. A execução foi rapida como o plano. O portuguez foi arrojado ao rio com algumas pancadas na cabeça; mergulhou, veio á tona da agua, fincando-se na quilha do barco, á maneira de rémora, pendurou-se n'um dos bordos, os francezes convergiram para o ponto, os caixões escorregaram para esse lado, o barco inclinou-se tanto, e o barqueiro com tal arte ajudou á catastrophe, que se virou o barco: francezes e caixões tudo se sumiu nos abysmos, salvando-se, apenas, o barqueiro, por ser grande nadador, e merecer salvar-se como instrumento que foi da justiça providencial.

Não sabemos ao certo quantos contos de réis o Douro sepultou nos seus reconcavos. Mais de cem, afóra o dinheiro e caixões do bacharel Sampayo, se calcula a perda. Os haveres de Norberto de Meirelles estavam todos alli. Restava-lhe, apenas, a granja do Candal e a casa da rua das Taipas; mas, o arrozeiro, no mez immediato, tinha que pagar letras, que os portadores, fiados na segurança do aceitante, não haviam apresentado no dia do seu vencimento, rogando-lhe, por favor, o conservar em seu poder os pagamentos até se restabelecer a ordem no giro commercial.

Era, pois, desgraçadissima a posição do pae de Carlota Angela. Via-se pobre, e sentia-se desfallecido e velho para reconquistar o producto do trabalho e da astucia, nem sempre legitima, de quarenta annos. Ainda mesmo que amigos e credores o ajudassem, como de feito ajudariam, esse balsamo não fecharia a chaga. A pena do seu dinheiro era uma angustia infernal, que as palavras animadoras da christã e resignada esposa não alliviavam.

—Deus o deu, Deus o tirou, Norberto,—dizia ella, convidando-o pela religião á paciencia.

—Vae-te d'aqui com as tuas beatices!—respondia elle—Estamos pobres por tua causa. Se fosses uma mulher amiga de teu marido e de tua filha, não dizias onde estava o meu dinheiro, o meu dinheiro, o dinheiro da minha alma!

E, exclamando assim com vozes que derretiam o coração, chorava como uma creança o pobre homem, arrepellando as suissas e os cabellos.

Atalhava Rosalia:

—Não te mortifiques, Norbertinho. Eu se disse onde estava o dinheiro foi para te salvar a ti, porque o tal homem da cara coberta disse-me que tu estavas preso, e te matariam se eu não dissesse onde estava o dinheiro.

—Deixasses matar; antes isso, do que ficar assim... sem nada!