—Ainda temos com que viver, meu amigo. Se eramos ricos, as nossas despezas poucas eram. Faz de conta, Norberto, que o dinheiro está enterrado onde estava; tanto nos serve elle debaixo da terra, como na mão dos francezes. Sabes o que se ha de fazer? Tornemos a trabalhar como quando nos casamos. Para comer e vestir como até aqui sempre hemos de ter. Aos credores dá-se-lhe alguma cousa do que se deve, e vae-se pagando o resto aos poucos. A nossa Carlota quer ser freira, e o dote pequeno é. Eu lh'o arranjarei com as economias que poder fazer. Tenho algumas joias que se vendem, e pouco faltará para o dote de Carlota. Não achas que tenho razão, Norbertinho? Ora vamos, tem paciencia, e agradece ao Senhor em nos ter deixado a vida.

—De que diabo me serve a vida! ah! o meu dinheiro, o dinheiro da minha alma, que tanto me custou! Agora é que os outros me hão de pôr o pé no pescoço. Como não estarão contentes os invejosos! Foram elles que me roubaram. Esse homem que trazia o lenço pela cara era algum dos nossos visinhos, que não podia ver como eu ia medrando! Estou roubado! levaram-me o meu dinheiro, a minha vida, o meu suor, a minha alma. Agora matem-me, com trinta milhões de diabos! Quero morrer, antes que me vejam pobre! vou partir esta cabeça n'uma pedra, e tu fica para ahi a pedir uma esmola, já que disseste onde estava tudo quanto tinhamos.

N'estas e n'outras lamentações, em que a blasphemia não faltava nunca, curtiu, no Candal, a empeçonhada existencia o miserando arrozeiro, durante tres semanas, até que lhe pegou uma febre, e uns frenesis de energumeno, que o pozeram ás portas do inferno. Salvaram-o algumas tisanas, e os confortos de dois ou tres amigos compadecidos que, rogados por D. Rosalia, lhe foram dar esperanças de rehaver com capitaes emprestados, senão tanto quanto perdera, ao menos mais que o necessario para viver com decencia e satisfação. A convalescença foi morosa, e arriscada com recaídas, procedentes de vertigens que advinham depois dos prantos pelo seu dinheiro.

Voltando ao Porto, logo que o exercito francez saíu, fez uma honrosa concordata com os seus credores, e retomou as redeas do seu mester, ajudado pelos amigos e desvelos da mulher, que toda era energia, actividade, e carinho para fazer esquecer a pobreza a seu marido, preoccupando-o com a esperança de enriquecer outra vez.

N'aquelle tempo, porém, esta cousa a que hoje, em francez, se chama fortuna, não se alcançava com a rapidez de agora. A perda do proveito de quarenta annos lidados na vida commercial eram necessarios outros quarenta annos para restaural-a. Por isso que o caminho de ferro era uma utopia, e a celeridade do fio electrico um ideal dos contrasensos impossiveis, a maquina de fazer dinheiro era um mytho, em que se acreditava porque a moeda corrente era fundida e cunhada; mas nenhum particular julgava possivel fazer em sua casa dinheiro.

A posição de Norberto era, portanto, relativamente má. Descorçoado para as labutações do negocio, sufficientemente obtuso para chegar por devezas e atalhos á estrada que os outros palmilham tarde e a más horas, o negociante decaído lá sentia em si roer a desconfiança de que não havia para elle mais readquirir a centena de contos, que tão perto d'elle estavam encalhados entre as fendas de alguma rocha.

Esta descrença entibiava-lhe o animo, infundindo-lhe uma melancolia taciturna e lethargica, d'onde não havia nada que o podésse divertir.

Carlota Angela, recolhida ao seu suspirado mosteiro, soube da desgraça de sua familia. Ergueu as mãos ao Senhor, pedindo-lhe que alliviasse as mágoas de seus paes, e lhes désse, em troca da riqueza perdida, a esperança de maior felicidade no céo.

Quando D. Rosalia disse ao marido qual era a supplica incessante de Carlota, Norberto respondeu:

—Ora! qual céo, nem meio céo! Diz-lhe que peça a Deus que me dê dinheiro.