—Pois o que te disseram?!

—Procurei-a para ver se ella me aclarava o mysterio d'essas cartas. Disse-me uma criada que todas as religiosas tinham fugido aos francezes, e a noviça Carlota Angela fugira com sua tia freira.

—A noviça! Isso é impossivel!

—Será; mas foi isto o que se me repetiu fóra do convento. Casualmente me encontrei n'uma casa onde se fallava no grande roubo feito pelos francezes a um tal Meirelles, rico negociante do Porto, que ficara pobre. Alguem disse que esse Meirelles era o pae de uma noviça creança, que já tinha acabado o tempo do noviciado, e se chamava Carlota Angela. Quiz inquirir mais particularidades que me explicassem as tuas relações com a tal menina, e nada colhi. Propunha-me procurar directamente informações do negociante, quando fui encarregado da commissão que trouxe. Aqui tens o que sei, e o que não sei has de tu sabel-o explicar melhor do que eu.

—Sei tudo!—exclamou com força e precipitação Mendonça—Sei tudo... Ámanhã vou para Portugal. Já pedi licença, e não m'a deram. Não importa. Deserto. Julguem-me como quizerem; condemnem-me, arcabuzem-me, mas que eu veja Carlota antes de morrer. Esta mulher é tudo quanto eu tenho na vida. Se eu não morrer por ella, se me não sacrificar na honra, em tudo quanto ha mais sagrado na vida, sou um infame sem rehabilitação perante Deus e a minha consciencia. Se ella está morta, fui eu que a matei, não foi o malvado que me roubou estas cartas, e privou a desgraçada Carlota de ver as minhas. Já comprehendes o segredo d'estas cartas? Esse homem que mataram, solicitou o meu desterro, para obstar ao meu casamento com a sobrinha. Interceptou a nossa correspondencia com o fim de matar n'ella o amor com a certeza da ingratidão. Foi elle quem me enviou aqui um homem com a noticia de que ella se tinha casado. Eu esforço-me ha seis mezes em vão para conseguir licença de ir a Portugal salvar este anjo, e curar-me da desesperação que me tem levado ao extremo do suicidio muitas vezes. Agora creio que perdi Carlota. Quando chegar ao Porto estará ella já professa. Não importa. Quero vel-a, quero que ella me veja morrer braçado aos ferros que a separam de mim para sempre. Esta minha agonia não tem igual n'este mundo, meu amigo. Separam-me duas mil leguas da mulher que eu poderia salvar, se a visse n'este momento. Por que a não procuraste tu? por que lhe não mostraste estas cartas, que nos salvariam ambos? Podias ter-nos feito um bem, que eu te agradeceria de joelhos, e ella endoudeceria de jubilo... Paciencia... já agora devorarei todas as torturas da duvida com menos angustia. Ainda tenho uma esperança... Disseste-me que o pae de Carlota estava pobre. Talvez que não possa dar-lhe o dote para a profissão, talvez que uma doença retarde esse terrivel acontecimento. Talvez que Deus se compadeça de nós ambos, e lhe inspire a esperança de tornar-me a ver. Nunca tive tanta confiança na misericordia divina. É impossivel que Deus veja com indifferença o terrivel resultado da profissão. Eu vou arrancal-a do altar, vou disputal-a a Deus, vou amaldiçoar a religião cruenta que receber uma mulher que me pertence por um juramento mais sagrado que todos os votos do claustro.

Não cansou ainda aqui o fôlego da estirada declamação. Salter fallou horas, e o amigo escutou-o com admiravel paciencia, até que pôde admoestal-o que não fugisse, nem saísse do Brazil sem licença. Nem ao menos conseguiu com as mais atiladas razões retardar um dia a deserção. Já o amigo se offerecia para pedir ao principe regente a licença, trocando por ella a commenda da torre e espada com que sua magestade o agraciara, ao ouvir-lhe as novidades prósperas do reino. Salter rejeitava conselhos e favores. O brigue saía no dia immediato, e não estava ainda marcada a saída de outro navio. Negarem-lhe a licença era já um capricho, senão antes uma desconfiança fomentada pelo bacharel Sampayo. Ao lado do ministro havia alguem que lhe insinuava a suspeita de ser Mendonça um forçado vassallo do principe, e um jacobino que Manique soubera desterrar a tempo.

O governo não dera ao capitão de marinha satisfação alguma pelos arbitrios do capitão-general, durante o tempo que estivera preso. O mais que fez foi dar-lhe liberdade, reprehendendo-o por ter feito justiça com suas proprias mãos, sobre um homem que viera ao Rio em commissão de confiança.

Salter tragou em silencio o novo vilipendio, e protestou, não só desertar, mas alistar-se no exercito francez, e atirar-se como desesperado aos braços da morte, na primeira batalha que lhe deparasse a sua negra fortuna.

Eram, pois, baldadas todas as reflexões do ajudante de ordens.

A bordo do brigue inglez havia ordem para receber um marinheiro portuguez, e um preto marinheiro tambem. Ao anoitecer d'esse dia Francisco Salter de Mendonça, e o escravo que lhe assistiu durante a prisão, vestidos de marinheiros, foram recebidos no brigue. Na manhã do dia immediato, quando o ajudante de ordens, ancioso de alegria, procurava Salter para lhe entregar a licença que o principe assignara, contra as suggestões do ministro, o vaso inglez já tinha saído.