—Quem? depressa... diz-me o nome d'esse homem.

—Francisco Salter de Mendonça é como elle assigna as lamuriantes epistolas: eil-as aqui.

Tu me dirás agora se o corregedor era o teu alcayote para a dolorida noviça.

Salter devorava as palavras da primeira carta de Carlota, sem entender as ideias. De uma passava a outra, examinando nem elle sabia o quê. O sangue subiu-lhe á flor do rosto, inflammando-lhe as pupillas irrequietas. Era uma d'essas alegrias que chegam a doer em seu frenesi. Ao rubor succedeu a pallidez subita, e o suor da vertigem. Não lhe cabia o coração no peito, nem bastava ao afogo dos pulmões o ar que aspirava a profundos haustos. Soltou uma exclamação puxada do intimo da alma, um ai desafogado, vibrante, e das entranhas como se lhe desentalassem a garganta quando o laço o fazia já estrebuxar em arrancos de morte.

O condiscipulo estava pasmado d'este conflicto, e tanto se lhe afigurou respeitavel o jubilo ou a agonia de Salter, que não ousou interromper a scena muda d'aquelle lance. Salter lançou-se-lhe aos braços, chorando como uma creança, e proferindo afogadas exclamações, que pareciam os gemidos que faz soltar uma dor physica incomportavel.

—Então isto é muito mais valioso do que eu suppunha!—disse o ajudante de ordens—Que feliz eu sou, se vim tirar-te de alguma duvida tormentosa.

—Trouxeste-me a esperança, a vida, o céo. Estas cartas são d'ella, da minha esposa.

—Tua esposa? Pois Carlota Angela não é uma noviça?

—Não; é apenas uma secular no mosteiro de S. Bento.

—Não foi isso o que me disseram no convento.