—Não conheces o Antonio José da Silva? Aquelle rapaz que está podre de rico? aquelle que herdou a casa do patrão, aqui ha tres annos? Ora essa! não conheces?!
—Não conheço, nem quero conhecer, meu pae.
—Tu que dizes, Carlota!? Pois tu não queres casar com elle?!
—Não, senhor.
—Ó pobretaina de uma figa! pois tu vês que não tens nada, que teus paes estão pobres como Job, e não queres valer aos auctores de teus dias?
—Não, meu pae, eu dou a minha vida aos auctores d'ella, se a quizerem; mas o coração, que já dei a Deus, não póde ser de mais alguem. O pae não é tão innocente como parece. Devia suppôr que a minha resposta era esta. Quando entrei n'esta casa, disse-lhe francamente as minhas tenções. Como ellas não estavam dependentes dos thesouros de meu pae, a perda d'esses thesouros não as alterou na minima cousa. Sou a mesma que era, e brevemente serei o que já não posso deixar de ser: uma freira pobre sem precisão de ser rica, com muito mais do que me é necessario para ir amparando a minha curta vida no serviço de Deus, e na penitencia dos meus peccados, e dos peccados alheios.
—Não quero sermões, com mil diabos! vociferou o arrozeiro, batendo um retumbante punhado sobre a banqueta—Não venho ouvir prédicas! És minha filha, e has de fazer o que eu quizer. Não te dou o consentimento para seres freira!
—Paciencia: sel-o-hei na intenção; mas não sairei do convento.
—Has de sair por justiça.
—Morta, póde ser.