Dado que a sua iniciação a estudos superiores não levasse o intento posto em determinado destino, motivos, em que talvez seria grande parte a obediencia, moveram o moço de deseseis annos a entrar na Terceira Ordem de S. Francisco, chamada da Penitencia, cuja casa capitular era em Lisboa.
Não é já hoje em dia mui vulgar a noticia da illustração em que primacialmente se avantajava{8} aquella corporação religiosa, cujos serviços litterarios e evangelicos ahi estão consignados nas Memorias historicas do arcebispo Cenaculo e nos variados escriptos de fr. Vicente Salgado. Nenhuma ordem, digamo'l-o assim, acabou com mais brilhantes fins de existencia gloriosa, atravez de quatro seculos. Ali principalmente se ensinaram a diplomatica e as linguas orientaes; d'ali sahiram abalisados mestres de grego e hebraico, arabe e syriaco.
Muito de industria lembramos esta clausula quasi inutil, por que temos lido e ouvido inconsiderados se não indoutissimos conceitos dos Regulares da Terceira Ordem de S. Francisco. Não será pois descabido lembrar a juizes menos competentes que a livraria, actualmente chamada da Academia real das sciencias, era a d'elles.
Em 21 de maio de 1825 vestiu o snr. Antonio Alves Martins o habito de professo, e passou a estudar philosophia no Collegio do Espirito Sancto em Evora, doação de el-rei D. José á Terceira Ordem, em 1776, extincta a Companhia de Jesus. Em outubro do anno seguinte, matriculou-se no collegio das Artes, com o proposito de seguir o curso universitario, frequentando alternadamente as aulas de mathematica, philosophia e theologia.
Cursava o distincto academico o seu terceiro anno da universidade, quando as renovadas idêas de 1820 agitavam febrilmente os animos de grande numero de escolares—aquella phalange de generosa{9} mocidade, predestinada a ser tão grande parte na propaganda dos principios liberaes e na occupação dos mais eminentes postos da representação nacional. O alumno de theologia, posto que ligado a uma corporação religiosa, aliou-se aos propugnadores do governo representativo, sem todavia imparceirar-se com os injustificaveis bandos que intermetteram uma pagina de deshonra indelevel na historia dos asperos sacrificios d'aquelle periodo.
Desde tenros annos a condição do snr. Alves Martins sahiu avessa a rebuçar ou sequer temperar calculadamente as suas opiniões politicas. Este franco destemor e afouta energia foi sempre, é, e apezar da experiencia será sempre a mais relevante physionomia do snr. bispo de Vizeu. Á ousadia de manifestar-se affeiçoado á revolta militar do Porto, de 16 de maio de 1828, seguiu-se ser riscado da universidade, quando frequentava o terceiro anno theologico. Sem embargo, o snr. Alves Martins proseguiu nas aulas da sua congregação; e, concorrendo ás cadeiras de philosophia e theologia, recebeu o premio de sua applicação e creditos, sendo logo, e tanto na flôr da idade, nomeado mestre da Ordem. Os condiscipulos do estudioso mancebo ainda hoje recordam a viveza, penetração e discernimento com que elle se egualava aos mais distinctos.
Não estava, todavia, aquelle alvoroçado espirito ainda maduro de feição para pautar-se ao magisterio.{10} Impulsaram-no estimulos inflexiveis a quinhoar dos perigos e honras nas luctas que estrondeavam fóra e dentro do claustro. Era aquelle um tempo em que todo homem olhava para o horisonte do dia novo, bem que a uns se figurassem de fogo destruidor as côres da aurora, e outros a saudassem como luz redemptora a alvorejar civilisação para o mais ignaro, escuro e abatido torrão da Europa. Alves Martins não podia pertencer ao numero dos prudentes que, adorando a occultas a idêa, sopesavam com os açamos de uma discreta espectativa os impetos de a confessar e servir. A experiencia mostrou seguidamente que estes sisudos foram depois os primeiros que sahiram enramados a rojar os louros nos tapetes dos ministros de 1834: por onde se prova que a prudencia é sempre de medranças, ainda quando uma san terminologia a alcunhe de ardilosa.
Como quer que fosse, Alves Martins, no momento em que as tropas liberaes rebeladas no Porto evacuavam Coimbra, sahiu do collegio, acompanhou-as, e sentou praça no regimento de Voluntarios de Alijó. Sem demora lhe foi instaurado processo no tribunal secular e nas commissões militares de Traz-os-montes; o profugo, porém, recolhendo-se ao claustro, pensou talvez que a perseguição, empenhada em exterminar inimigos mais temerosos, o esqueceria. Era, em verdade, ter em{11} coisa de pouco a memoria das testemunhas juramentadas no seu processo!
Em 1832 foi nomeado capellão da armada: fôra-lhe imposto o encargo sob obediencia, por que da Terceira Ordem sahiam os padres para os navios do estado[[1]].
Poucos mezes depois, o capellão, cuja pertinacia em ser liberal o tornára por demais esquecido do instaurado processo, foi de novo processado na Majoria-General, preso nas cadeias de Coimbra, e sentenciado com mais tres companheiros na Conservatoria da Universidade.