Na tarde do dia 28 de janeiro d'aquelle anno uma leva de presos ida de Coimbra para Almeida{12} conseguiu fugir na altura de Sancto Antonio do Cantaro, favorecida talvez pelo commandante da escolta. N'aquella leva iam tres presos já sentenciados no Conservatoria. A sentença era um modêlo de concisão e ferocidade. Chegados a Vizeu, deviam ser espingardeados no campo de Sancta Christina. Um dos tres condemnados era o snr. Antonio Alves Martins.

As alegrias d'uma salvação muito incerta não compensaram ao sentenciado e a tres companheiros as angustias que se seguiram. Desviados de todo trilho, desprovidos de minimo recurso, e até desconfiados da caridade do lavrador a quem pedissem um pouco de pão e agasalho, durante onze dias e noutes, erraram, por serranias, retranzidos de frio e{13} fome. Quando ao nono dia de tamanha miseria chegaram á margem do Mondego, junto de Villa Verde, e reconheceram que o passo era guardado por sentinellas, os quatro fugitivos ás nove da noute entraram na agua, e, como submersos em uma salina, esperaram quatro horas de formidavel agonia a menos perigosa opportunidade de vadear o rio. Dois dias depois chegaram a Leiria, onde se apresentaram ao tenente coronel Vasconcellos, hoje visconde d'aquella localidade.

Com quanto a robusta mocidade de Alves Martins se aguentasse na lucta com os trabalhos d'aquella fuga, o resultado funestou-se-lhe depois, sobrevindo-lhe um typho para o tratamento do qual o hospital de Leiria lhe favoreceu uma enxerga. Apenas convalescido, passou a Lisboa; e, terminada a guerra civil, voltou a continuar seus estudos em Coimbra, onde se graduou em theologia, por 1837, deixando as faculdades de mathematica e philosophia no segundo anno.

Na lista dos estudantes perseguidos e por tanto agraciados pela lei de 1834, estava o nome de Antonio Alves Martins. Elle, ainda assim, dispensando-se dos beneficios da lei, subjeitou-se ás praxes, frequencia e provas dos restantes academicos. Aceitou apenas os doze mil reis que lhe pertenciam como a eggresso da Terceira Ordem. Eis ahi o primeiro lance de desinteresse que será o percursor{14} de outros testemunhos de não vulgar desprendimento.

De mais d'isto, um homem no vigor dos annos e sasão das aspirações, com justa causa para desvanecimentos de meritos, uns ganhados com seu eminente espirito, outros adquiridos pelos trances que correu a sua vida no serviço da causa triumphante, ahi o temos concorrendo a uma cadeira de philosophia no Lyceu do Porto para grangear o pão da independencia, visto que o despacho para o magisterio universitario se demorava. Mas, nem ainda ahi, nome e serviços lhe complanaram difficuldades. Um antigo professor obteve, annullado o concurso, despacho fundado em direitos de já ter exercido o ensino. Alves Martins concorreu novamente á cadeira de historia e geographia para a qual foi despachado em 1839.

Assombra e entristece ao mesmo tempo o confronto das ambições descompassadas que hoje em dia saltam e bravejam de nomes obscurissimos, e a modestia, comedimento e parcimonia dos homens de então, os quaes tão affastados já parecem d'estes nossos dias! E todavia, são de hoje, são nossos contemporaneos! Que decorosos brios não reportavam o animo dos que se davam por bem pagos de ser livres para poderem buscar sua parca vida no ensinamento da mocidade! Claro era que Antonio Alves Martins não podia abastardar os dons da intelligencia, mal-baratando-os em incenso ao{15} poder—em escambo de mercês que lhe permittissem, inerte na força da idade, e no regalo de lerdos ocios, descurar como incommoda esta coisa onerosa chamada honra do trabalho.

Tres annos passados, o professor do lyceu foi eleito deputado.

A sua entrada no parlamento em 1842 abriu mais um exemplo dos damnos que fomenta a rigidez do caracter vinculada ao arrojo da censura. O snr. Alves Martins distinguiu-se na opposição. Os seus discursos não eram preparados com a engenhosa paciencia dos que attentam superiormente no brunido e terso dos periodos, e a miudo pompeam enfeites academicos em assumptos de seu natural simplissimos. Como a sua eloquencia brotava subita das convicções, e a cada passo os desacertos do poder lh'as estimulavam, não se lhe fazia mister o prévio lavor da composição litteraria das suas orações. O snr. Alves Martins era, primeiro que tudo, dialetico, assim destro quanto laconico; umas vezes severo, outras asperrimo, mas sempre justo, e escutado com respeitosa attenção de parciaes, e adversarios, entre os quaes se procuravam sempre os mais audaciosos para o impugnarem. A austeridade de sua indole, inflexa ás chamadas conveniencias partidarias, singularisava-se por uma honrada obstinação propriamente com os erros da sua parcialidade. Os do seu lado impacientavam-se magoados quando as frechas do intemerato argumentador{16} lhes iam apontadas e mais penetrantes que as dos adversos. Que montava isso á serena consciencia de Alves Martins? Os seus amigos politicos deixavam de o ser, logo que exhibissem, como diplomas de consideração, polluir-lhe por efeito d'uma forçada condescendencia a inteireza de seus principios sempre liberaes, e ao mesmo passo moderados e conciliadores. Contra as demasias do poder achamol'-o sempre em reacção vigorosa, quer os governos se fortalecessem na complacencia do throno, quer no apoio faccioso dos plebiscitos. No seu animo tanto impendiam influencias patriciatas como populares. Abusos de ambas as procedencias lhe eram por egual odiosos, e o sobre-excitavam a extremos de não poder estancar o impeto das phrazes excessivamente acrimoniosas, se algum contendor lhe recalcitrava com desabamento. Assim o vimos sempre e com indomavel pulso nas accêsas disputas com o actual visconde de Souto Maior[[2]].{17}

Acima escrevemos que a sua entrada no parlamento inaugurára mais um exemplo dos damnos inherentes á rigidez de caracter e aos atrevimentos de uma franca reprovação. O governo, para lhe fazer sentir seu desagrado, á custa d'uma injustiça sem disfarce, preteriu-o no despacho universitario. Este facto devêra capitular-se de inveterada desmoralisação, se antes não fosse uma especie de direito consuetudinario nos governos que todos se estribam na adhesão dos amigos, e por amor d'elles supplantam a justiça dos contrarios. E tão perversor direito explica as abjecções, as apostasias, os invilecimentos contra os quaes Antonio Alves Martins, desde deputado até ministro do reino, desde conventual de Jesus até prelado viziense, se levantou sempre com honesta sobranceria.

Verdadeiramente, contra o adversario d'este fôlego não bastavam os athletas parlamentares. Urgia ao poder suspeitoso espial-o no escuro das noites e ladeal-o de quadrilheiros.