Antes de ser deputado, já o snr. Alves Martins, no ultimo anno de sua formatura, em 1837, havia sido prezo em Coimbra como cumplice na revolta dos marechaes—lance que passou totalmente alheio da sua menor interferencia. O illustre preso devia ainda conhecer no carcere, que lhe davam os livres, a tabua que lhe tinha dado o governo dos escravos. Apenas se haviam interposto tres annos desde a sentença de morte lavrada na Conservatoria{18} até ao mandado de captura da auctoridade constitucional!
Sendo deputado, foi preso em 1843, ou, como quem quer adoçar o termo, foi detido por que entrava por noute alta em conciliabulos revolucionarios.
No seguinte anno, 1844, estando no Porto, foi intimado para encarcerar-se no Castello da Foz, como faccionario da revolta militar d'aquelle anno. Governava então o districto o snr. Antonio Emilio Brandão, cavalheiro cujas virtudes ainda não foram puidas pelo atrito da politica. Dignou-se a auctoridade ouvir as declarações do indiciado como conspirador; e, suspensa a ordem de prisão, deixou-o vigiado pela policia.
Escusado é procurar o snr. Alves Martins estranho á revolução de 1846 e 1847. Conheceu os homens, que formaram o gabinete revolucionario, visinhou d'elles com o seu conselho e pratica dos negocios; mas pendemos a crer que muitissimos actos da Junta, nomeadamente os militares e diplomaticos, mereceram a sua reprovação, mais ou menos expressada no opusculo NOVE DE OUTUBRO, que sua S. Ex.ª publicou, historiando os successos tumultuosos da contra-revolução[[3]].{19}
O snr. Antonio Alves Martins não conheceu o andamento da revolução sómente pelos «boletins» das manobras e batalhas impressos nas gazetas. Viu-a de perto, bem no centro dos perigos, tomando d'elles o quinhão que lhe quadrava, como a homem que em si sentia impulsos de defender no campo a causa que patrocinára na imprensa. Ha ahi o quer que seja grandioso que nos avulta a proporções improprias d'este tempo o homem de letras de par com o soldado não esquivo aos trances das pelejas. A hypocrisia não acha edificativo o lance; mas os espiritos despreoccupados admiram e respeitam a coragem que intendeu dever ao bem da sua patria, a um tempo, os serviços do braço e os thesouros da intelligencia.{20}
Terminada a guerra civil pela convenção de Gramido, continuou o professor a reger sua cadeira, e simultaneamente redigindo o Nacional, diario então organisado para sustentar os principios da reforma, abastardados senão derruidos pelo gabinete constituido depois da convenção. O trabalho assiduo de S. Ex.ª era gratuito como antes e depois aconteceu em todos os periodicos de sua collaboração. Concorremos então na parte litteraria do Nacional. Com intima saudade nos recordamos da lhaneza e cordeal critica com que o primeiro redactor politico nos acoimava de frivolos ou louvava por esperançosos uns folhetins com que nos ensaiavamos para esta lida indefessa de vinte annos.
Os artigos do snr. Alves Martins, ridigidos com admiravel presteza, e momentos antes ou simultaneos da composição typographica, eram modêlos de polemica, e ás vezes retaliações um tanto acerbas para os adversarios. Passos Manoel, avaliando o caloroso publicista como escriptor politico, elevava-o á eminencia entre os melhores. N'aquelles annos de 48 e 49, o Nacional primou no seu progressista e liberalissimo programma, confiado ás superiores capacidades de Alves Martins, Parada Leitão, Evaristo Basto, e Nogueira Soares.
O espirito publico estava disposto a coadjuvar a revolução militar de 1851, acaudilhada pelo marechal Saldanha, e resurgida da sua prostração por alentos de alguns seus confederados no Porto. No{21} esforçado numero dos cooperadores da intitulada «Regeneração» alistou-se o snr. Alves Martins, posto que a politica do snr. duque de Saldanha lhe não abonasse mais prosperidades nacionaes que a politica do snr. conde de Thomar. Uma e outra, mais ou menos aulicas e filiadas na côrte, eram pouco menos de facciosas, e mais que muito impopulares. A nosso juizo, o snr. Alves Martins, considerando que o antagonismo pleiteava entre dois validos a disputarem-se privança e influencia, teve como politico e acertado expediente apoiar o mais fraco, para assim, removidos os estorvos dos nomes panicos, abrir novo horisonte ás reformas desejadas, e sobverter os elementos reaccionarios. Este seria, por ventura, o proposito do solerte politico e de outros notaveis correligionarios da Junta consubstanciados na revolução.
E, de feito, a phase da nova politica, animada pelo talento sagacissimo e genio conciliador de Rodrigo da Fonseca Magalhães, inaugurou-se com ares de sciencia nova em materia de governar. Homens de arraiaes contrarios congrassaram-se no mesmo intuito, fatigados dos vaniloquios da tribuna, e cortados dos desastres da guerra civil. Iniciaram-se na administração algumas intelligencias devotadas ao progredir material, ao adiantamento procedente dos estudos economicos, descurados até áquelle tempo em que, pelo ordinario, os mais loquases parlamentares pareciam ainda remodelar as{22} suas theses pelas recordações tribunicias das primeiras camaras, estudando a eloquencia em Ferreira Borges e Fernandes Thomaz. Então se viu esfriarem os intranhados despeitos, apagarem-se as inspirações sonorosas dos questionadores politicos, e communicarem-se uns a outros o mesmo impulso de apoio para obras publicas, estradas, telegraphos, portos maritimos, reformas aduaneiras, desvinculação da terra, em fim, operou-se estranhamente a communhão de todas as vontades no estudo e exploração dos processos de riqueza que as nações prosperas nos exemplificavam.
Mas em quanto os videntes do progresso material pindarisavam os adais da idéa nova, o governo, inaugurado em 1851, dilapidava e prodigalisava, como se o edificio novo houvesse de ser cimentado sobre as ruinas da fazenda nacional, e o povo, que farte empobrecido para tão descommedidas despezas, devesse ser sacrificado aos creditos dos iniciadores do progresso.