O snr. Alves Martins retirou o seu apoio ao governo. Estava com o povo e contra as demasias do poder. Estava com o progresso; mas progresso compativel com a debilidade do thesouro.
Em novembro de 1852, obteve S. Ex.ª a nomeação de lente de theologia: suscitando-se duvidas, no entanto, sobre a antiguidade que lhe competia, renunciou o magisterio, optando pela cadeira canonical na sé patriarchal de Lisboa.{23}
Continuou militando já na opposição, já nas maiorias, assim na imprensa como no parlamento, por espaço de nove annos.
Em 1861, foi nomeado enfermeiro-mór do hospital de S. José, onde se disvelou quanto cabia em suas muitas faculdades e prestantissimos alvitres. A imprensa louvou-o unanimemente pelas reformas que em sua administração se operavam. Cortou abusos. Pautou rigorosamente obrigações. Gratificou serventuarios benemeritos. Exauthorou os nocivos. Feriu pela raiz a arvore dos desperdicios á sombra da qual se medravam muitos, com aggravo da pobreza e do infortunio. E tamanho affecto cobrou o novo enfermeiro-mór áquella casa de dôres que, volvidos annos, e já ministro do reino, se lhe estava sempre desintranhando em beneficios, convertendo em pão e cobertura as liberalidades das pessoas que por ellas, mais do que pelas mercês, se então nobilitaram.
Approuve a S. Magestade galardoal-o com a commenda da Conceição pela sua benemerencia no exercicio de enfermeiro-mór. O snr. Alves Martins regeitou a graça por intender que o comprimento de uma obrigação não era caso para condecorações.
De passagem notaremos no despacho d'este afanoso encargo um successo que motiva saudades: foi este despacho o ultimo que o snr. D. Pedro assignou. O amigo dos infelizes, ao despedir-se d'elles, enviava-lhes uma alma cheia de generosa rectidão{24} a zelar-lhes o seu patrimonio. Bem escolhido protector para desvalidos que—bem o sabem os que de perto convivem com o illustre prelado—facilmente enternecereis a lagrimas e vereis commiserado aquelle aspeito que se vos figura severo e inaccessivel ás dôres maviosas da compaixão.
Em julho de 1862 foi apresentado bispo na sé de Vizeu o snr. D. Antonio Alves Martins, confirmado no consistorio de S. Matheus, e sagrado em dia de Todos os sanctos. Como a doença o impedisse, governou a diocese por procurador, até que em janeiro de 1863 fez entrada solemne na sua cathedral. No tempo que medeou entre a sua apresentação e confirmação, recebeu um breve de S. Santidade, encarregando-o do regimento da diocese, na qualidade de vigario apostolico, a fim de debellar o scisma que lavrava no bispado, á conta da nomeação do vigario capitular. Fôra o caso que o cabido descontente, recorrendo a Roma, obtivera annullar a segunda eleição. Recusou-se o snr. bispo a cumprir o breve, posto que honroso para S. Ex.ª em quanto S. Magestade o não approvasse. Travou-se alguma contestação entre o prelado e o nuncio que se dispensava do placito regio. O breve, porem, não se cumpriu. O snr. D. Antonio antepoz o respeito da lei portugueza ao arbitrio romano. Só depois da sua sagração, é que S. Ex.ª intendeu nos negocios da sua diocese. Foi esta uma judiciosa inflexibilidade de caracter que se dicidiu{25} pela dignidade nacional contra a jurisdição prelaticia. As insignias do principe da egreja, honorificadas pela confiança do chefe da christandade, não o demoveram de acatar submissamente os fóros do chefe da nação. Louvavel rigidez de primoroso animo que em cada acto nos está sobrepujando a medida vulgar.
O zêlo da missão prelaticia divorciou-o fundamentalmente da politica. A sua cadeira na camara alta, ao invez de mui naturaes conjecturas, esteve por espaço de annos devoluta. O solicito prelado dedicou-se de coração aos cuidados pastoraes, quer morigerando abusos, quer invidando esforços na educação do clero.
No primeiro anno fez tres ordenações; e, nos seguintes, ordenação geral e unica nas temporas de S. Matheus, attendendo ao proveito dos ordinandos.
Aqui vem de molde um facto cuja notoriedade nos corta delongas no memoral-o. De natureza estranha foi elle, e, como tal, soou com grande estampido dentro e fóra do paiz.