«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção alguma, até lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos soffrimentos passados, ella amava com o coração de um anjo.»
Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje possa ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os costumes de então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador lá foi alumiar tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos d'este seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em desfavor do regimen d'aquella casa de caridade para meninas orphãs, e de educação{196} social e religiosa para pensionistas, convém que se descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que a promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais dignamente mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo á censura irreflectida de alguem, que folgue de afiar no auctor os dentes da calumnia.
D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello da Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de sua filha. Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao falarem de Rosalinda, e d'ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.
N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia, apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse, lançou-se a elle de insultos e improperios tão novos, que o velho cuidou ganhar a bemaventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, creatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de sua{197} ama, uma ordem da regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D. Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella quizesse visitar sua filha.
Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de paralysia n'uma perna.{198}
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[IV]
A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com grande escandalo dos mesarios, a horas em que era dos estatutos o silencio obrigatorio.
D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a tempo de as não poder confiar do marido como legado á filha. Quando não estava no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com elle a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra o restituisse á liberdade.
Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?