Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:

«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.

«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora, para reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas de populaça!

«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á primeira decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.

«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a não ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior castigo era a privação de falar com outras meninas.{194}

«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida, alguns annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio destinado a Rita de Cassia.

«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão de ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pae nem pão, senão o da caridade, foi a victima expiatoria, para exemplo das outras, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ella piedade, mandando-a para o tronco de cima.

«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma veia; mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era geral a consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas á orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou estava morta.

«Deu signaes de vida.

«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de Castilho.[[3]]{195} Foram estas duas irmãs lavadas em lagrimas, pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.