—Não tenho remedio?!—bradou Maria—Tenho o remedio que dá a desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!

O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a que seu pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma dellas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manhã uma carta á fidalga mãe. Confortada com esta esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e timida como quem, desde a infancia, andou sempre sovada aos pés da desgraça.

De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta, recommendando-se como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quizera o{192} guarda-portão impedir-lhe o accesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.

Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e levou o marido a empurrões para fóra do quarto.

Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu capellão a encontrar-se com a filha.

A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os nomes, que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel funccionario em autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava ser demittido do officio no dia seguinte. O principal artigo de accusação da fidalga era ter o vil esbirro (amabilidade que muito offendeu o almotacé) era ter elle entregue ao pae a carta, que ia para a mãe. Graças á pacifica eloquencia do capellão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pae estava aguçando.

Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé, pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.

D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se á filha, exclamando:{193}

—De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice, se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor d'elle, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam d'aqui a poucos dias, se a minha vida não acabar antes!

Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica e vindicativa senhora.