Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.
Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma d'elle, e recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.
Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu marido. O almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama; disse-lhe, porém, que a obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e, em obsequio ao sr. Gonçalo Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.
Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma carta de que foi portador o proprio funccionario.
Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.
Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento, dando-lhe a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a com agitado aspecto, e disse colerico:
—Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã.{191} Eu me encarrego de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.
Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria Henriqueta um insulto de nervos.
—Foi entregar a carta ao algoz!—exclamava ella:—Agora é que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de meu pae!
—Não tem remedio senão espera'-las—Disse friamente o aguazil-mór.